Seleção, na alegria e na tristeza


Sérgio Buarque de Gusmão


O neoliberalismo informa: sai o torcedor, entra o consumidor de futebol. Torcedor é o amante fiel, solidário, apolíneo, que, mesmo sofrendo longas adversidades, permanece leal a seu time e a sua paixão. Consumidor é o torcedor-cliente, dionisíaco, leviano, um vira-casaca que pula do barco à primeira dificuldade, e, se não recebe a mercadoria que encomendou, insulta e vaia – vaia até a Seleção.

Triste espetáculo que se repetiu no último jogo, contra o Peru, em São Paulo, na quarta-feira, 25. Aos 42 minutos do 1º. tempo, os consumidores apupavam o melhor time de futebol do mundo na classificação da Fifa. Quando Romário fez o gol, a torcida inverteu a emoção e comemorou. Já perto do final do jogo, voltou a vaiar e, na pior das traições, torceu pelo adversário. Bandeiras do Brasil foram atiradas ao chão como a carta de amor de uma amante que faltou ao encontro. É a selvageria do torcedor-consumidor que alterna sentimentos opostos, tal qual um time passa da defesa ao ataque. É como se, numa guerra, a derrota dos nossos soldados fosse recebida com aplausos ao inimigo. Nem na França colaboracionista, ocupada pelo tacão nazista, viu-se tamanha perfídia. 

O torcedor-consumidor é um brasileiro como qualquer outro, mas, à sua maneira histérica, faz do mercantilismo o principal valor da sociedade. Todo e qualquer ato social é avalizado pelo cifrão, pelo comércio, pelo consumo. Tudo se reduz a transações de perde–ganha, de compra e venda. Contaminando o futebol, o neoliberalismo destrói antigas relações de afeto, até mesmo de estoicismo, que regem a torcida esportiva, e as substitui por um vaivém de emoções mercantis entre um fornecedor (o time), e um cliente (o torcedor- consumidor).

O torcedor-consumidor acha, no melhor figurino do capitalismo selvagem, que tem o direito de exigir por que está pagando. Ocorre que as relações entre um time de futebol e seus aficionados não podem ser mediadas pelas moedas, mas por valores afetivos e éticos. Aplaudir na vitória e vaiar na derrota é prostituir o ato de torcer. O torcedor que age assim falta com a solidariedade, com a fidelidade, com o coleguismo. Foge dos encargos embutidos na adesão a uma causa coletiva. Individualista, o torcedor-consumidor entende que a vitória é dele, mas a derrota é do time. Lembra-nos o lema que o dramaturgo Plínio Marcos atribuía a um certo técnico de futebol: “Eu ganhei, nós empatamos, vocês perderam.”

Saborear a vitória é fácil. “Os que vencem, seja lá de que modo, nunca disso se envergonham”, disse Maquiavel, que não conhecia futebol mas entendia a natureza humana. Saber perder é que são elas. Amargar a derrota sem perder a esportiva, sem mudar de lado, sem cometer a apostasia que, na religião do futebol, é negar a fé no time do coração.

O torcedor de resultados é um sinal dos tempos. No passado, times que sofreram longos jejuns de vitórias, como o Coríntians, jamais desanimaram sua fiel torcida, até conquistar o campeonato paulista de 1977. Em 1950, quando o Brasil vivia um dos períodos de maior auto-estima de sua história, o Maracanã foi nocauteado pelo Uruguai na final da Copa do Mundo. O estádio calou-se, aturdido, decepcionado. O País purgou o desgosto silencioso do vexame. Milhões se entristeceram, milhares choraram, mas ninguém esculachou a Seleção, nem dirigiu raiva autofágica para a própria alma verde-amarela tisnada de luto. Atualmente, numa conjuntura de desalento, basta que a Seleção erre passes no comecinho do jogo para que os apupos se façam ouvir nas arquibancadas. É o urro imediatista do torcedor-consumidor, em quem a frustração mais simples desencadeia uma fúria autodestrutiva e aética. Não ficam tristes quando perdem, ficam irados quando não ganham. Desprezam o luto, querem ir direto à ressurreição.  

Nem todos precisamos seguir o jacobinismo ufanista do escritor Nelson Rodrigues, que dizia “A Seleção é a Pátria de chuteiras”. Mas há algo muito errado quando se comprova que o futebol brasileiro só é vaiado no Brasil, e principalmente em São Paulo. Para fugir do espírito volúvel do torcedor-consumidor, os jogos da Seleção têm sido prioritariamente programados para cidades onde a tradição artística do nosso futebol é reconhecida, como Recife, Goiânia, Manaus.

Este é um país de 170 milhões de futebolistas, que jogam ou ensinam a jogar. É velho como o futebol o esporte nacional de criticar técnicos e jogadores, às vezes de forma humilhante, chamando-os de “burros” em altos brados. Provavelmente jamais haverá uma Seleção unânime. Todos os que enaltecemos esta arte brasileira de fazer do chute uma carícia na bola, temos divergências com o técnico, preferimos um jogador a outro, sugerimos táticas, propomos mudanças. É nossa forma legítima e saudável de participar, de jogar junto, de nos integrarmos a uma coletividade esportiva que para muitos é dogmática como uma seita.

O torcedor-consumidor é o avesso daquele que deseja ganhar jogando bem. Assim foi em 58, 62 e 70 – quando o escrete canarinho sagrou-se campeão com um futebol de alto nível. Assim foi em 1982 e 86, quando perdemos com a classe de melhores do mundo. Mas já não foi assim em 1994, quando ganhamos com um time razoável que jogava pelo resultado.

É certo que a Seleção está ruim. Espelha um Brasil humilhado, preso na retranca da desesperança, regido pela Lei de Gérson. Mas este é o Brasil escalado pela cartolagem, não deve ser o da arquibancada. Não se torce contra o filho, não se vaia o pai nem se xinga o irmão. Torcer a favor é reforçar os laços sem limites que vinculam um povo a uma paixão. Convém mostrar aos cartolas, aos mascarados, aos pernas-de-pau que a camisa 12 é mais que uma figura de retórica. É companheirismo, que, parodiando o compromisso de outro enlace sagrado, mantém-se “na alegria e na tristeza”.

 

Os 10 mais do Pará

A pedido do repórter Elias Pinto, e só por isso, listei numa entrevista ao Diário do Pará as “10 personalidades do século XX” no estado, incluindo a exceção inescapável de um maranhense:

“Depois de vultos de séculos anteriores (Francisco de Melo Palheta, Filipe Patroni, Cônego Batista Campos, Eduardo Angelim e Júlio César), e ficando nos mortos:

Serzedelo Corrêa – Inteligência superior, homem de ação na proclamação da República, compreendeu como poucos a vulnerabilidade da economia brasileira.

Antonio Lemos (que era maranhense) – Tinha um extraordinário senso do poder. Foi prefeito realizador.

Lauro Sodré – No final, engoliu Antonio Lemos. Talvez, o maior governador (no primeiro mandato).

José Veríssimo – Estudioso da Amazônia, destacou-se também, no Rio, como o crítico literário que valorizou Machado de Assis.

Guilherme Paraense – Primeiro brasileiro a ganhar uma medalha olímpica. No tiro, naturalmente.

Ismael Néri – A maior expressão artística do estado. Morreu cedo demais, aos 30 anos.

Magalhães Barata – Caudilho que está para o Pará como Getúlio para o Brasil.

Sérgio Cardoso – Um dos grandes atores do Brasil. Fazia um Hamlet soberbo.

Waldemar Henrique – Maestro que extraía música dos rios, da mata e do coração do povo.

E aquele gênio anônimo que inventou a máquina de tirar açaí.” 

 

Um entreposto italiano

Mercado da Cantareira, no centro histórico de São Paulo. Obra do arquiteto Ramos de Azevedo, foi inaugurado em 1933. Tem 12 mil m2, 302 vendas, onde cerca de 10 mil consumidores circulam diariamente. Os vitrais, urdidos em cinco anos de trabalho na Casa Conrado, são esplêndidos, homenageiam a agricultura. Fartura, produtos da melhor qualidade, mas fica a impressão de que não é um mercado brasileiro. Muito orégano e rúcula, mas nenhum maço de coentro. Muito salmão e nenhum caranguejo. Queijos e vinhos da Sicília, molhos de pimenta industrializados, lingüiça calabresa de toda sorte, em tripa de plástico, mas nada da portuguesa, feita à mão com pedaços de carne e toucinho, curtida em vinha-d´alhos e defumada, como se fazia em Soure e Bragança, e ainda se faz na cidade paulista do Embu. Nem charque de manta ou carne-de-sol ou farinha que não seja um arremedo vindo do Maranhão. É um entreposto italiano.

São Paulo é um mosaico, mas não é uma síntese do Brasil.

 

Flor do Lácio

Cacá, jovem jogador do São Paulo, egresso da classe média que vai a Miami e volta chamando papagaio de “my blonde”, conseguiu impor a grafia Kaká aos jornais. Os jornais aceitaram, como aceitam qualquer estupro da nossa língua portinglesa.

Esta moda começou no Jornal do Brasil, nos anos 70, quando o general “gênio da raça” pediu que seu nome fosse escrito Golbery. A história está bem contada por Marcos de Castro, que era redator do JB na época, no livro A imprensa e o caos na ortografia, da editora Record. Quem é do ramo não cede à tentação. O professor Pasquale Cipro Neto foi registrado como Cypro, e teria o direito de assim grafar seu nome, mas trocou o y pelo i para dar mais uma lição de português aos esnobes que chamam bulevar de boulevard.

 

Miscelânea

  • Certas coisas vêm à revelia. Nacionalista e bairrista, e agnóstico, percebi que não sei de cor o Hino do Pará, mas o de Nossa Senhora de Nazaré está na ponta da língua.
  • Não existe ajuda neutra. O deputado Carlos Santana, presidente do PT do Rio, recebeu R$ 50 mil da CBF para custear a campanha de 1998. Um ano depois, apesar de assinar o requerimento, trabalhava nos bastidores contra a instalação da CPI da Nike que investigaria as maracutaias na Confederação.
  • O financiamento das campanhas eleitorais com o dinheiro público, ainda que seja pouco, é a única forma decente e democrática de evitar esta oração de São Francisco. É a parte boa do antidemocrático projeto de “reforma política” do senador Sergio Machado (PSBD-CE), que o Senado vai aprovando devagar.
  • Mauá, de Sérgio Rezende, em vídeo. O personagem Dom Pedro II (Rodrigo Pena) é perfeito. O tipo entojado, cansa-se ao pegar numa pá, ensimesmado numa corte de sanguessugas áulicas, voltado para as miçangas do exterior. Não foi à toa que o povo apelidou-o de Pedro Banana. Em seu reinado, o Brasil andou pra trás durante cinqüenta anos.
  • O título do ano nos jornais: “Sudam financia agropecuária sem boi há 30 anos”. É de reportagem de Edson Luiz no Estadão de 29/04/2001.


29/04/2001

Publicado originalmente na revista virtual Belém do Pará