Prefácio para Sorte e Arte


O livro sobre as reportagens de José Roberto de Alencar


Sérgio Buarque de Gusmão


Poucas coisas importantes me tiram de casa atualmente, e uma delas é tomar conhaques com o Alencar num bar sem vocação, na esquina da minha rua. Ele vai com umas menininhas de Rockwell, a quem ensina as técnicas do lide. Às vezes, com sua mulher, Guida, uma prova altiva de que a tolerância mora no Paraíso. Em todas as ocasiões está sempre acompanhado de histórias de folhetim que mereciam figurar numa edição revista e ampliada deste livro. 

Ultimamente, Alencar tem feito com que tomemos mais e mais conhaques para destrinçar, num plano superior, dilemas éticos da profissão de jornalista. Dilemas sobre os quais ele reflete com escrúpulos proporcionais às transgressões e com a seriedade metodológica de integrante do Conselho Editorial do boletim do Instituto Gutenberg. Ele não gosta de leis, por exemplo, e se justifica com a astúcia mineira, e eu temo que um dia passe a considerar o sinal vermelho do trânsito como uma limitação fascista à liberdade individual. No final da tarde, fraternizados ainda mais por uma antiga amizade e pelo efeito harmônico dos conhaques, cubro os cem metros do bar à minha casa achando que acabo de sair daquela anedota em que dois mineiros, acocorados na beira da estrada, picando fumo, em silêncio, vêem um elefante voar. Eles se entreolham e continuam picando fumo. Aí passa outro elefante voando. Um deles diz: "Compadre, acho que o ninho deles é aqui perto". Esse tagarela é o Alencar. Da linhagem de repórteres que não se assustam com o tamanho da notícia, tem pela reportagem uma paixão carnal. Se vai contar a história de um radiestesista procurado pelo SNI, acha o homem. Se vai coordenar o noticiário acerca da visita do papa, pede uma ligação para o Vaticano com a intenção de trazer o Santo Padre ao telefone. Se elefantes voam à sua frente, ele simplesmente sai à procura do ninho. 

Tomem, no entanto, seus cuidados. Sorte e Arte é um livro que engana o leitor já nas primeiras linhas. Alencar quer nos fazer crer que fica sentado no bar, tomando conhaque, contando causos e puxando assunto, arrodeado das menininhas de Rockwell e, de repente, agarra uma notícia que saracoteia à frente dele. Está lá, na apresentação: "Fico de olho na vida e quando vejo vejo o furo - com o qual ganho a capa, a primeira página". Meu papel aqui é prevenir o leitor de que nem tudo que ele vai ler é verdade. Confronte, por exemplo, essa lorota de que ele tropeça nos furos, deixados em seu caminho pela fortuna, com o faro do repórter que digita no computador mapas epidemiológicos da Aids e descobre a baixa incidência da doença entre prostitutas de São Paulo. Se você é um estudante de Jornalismo ou um jornalista iniciante, preste mais atenção no modo perdigueiro como ele trabalha do que no estilo trampolina com que apresenta o trabalho. 

Alencar me cita como mestre. Envaideço-me, mas não perco a piada: Nem tudo que ele aprendeu foi comigo...Sou seu amigo e admirador e ao escrever este comentário, nos termos dele ("Mete o mau"), oscilo entre dois valores, a verdade e a lealdade. A verdade manda-me dizer que não endosso algumas técnicas de abordagem que ele usou com fontes. A lealdade me induz a proteger o amigo e sobretudo a não estender-lhe o dedo. Como me divido entre dois valores éticos, qualquer opção estará certa. Ainda não sei para que lado vou enveredar, mas sei que Sorte e Arte tem muitos méritos. O primeiro mérito (da lide e do lide) do livro de Alencar é ter sido escrito. Embora ele vá dizer que não é, Sorte e Arte é uma obra memorialística. Bom seria que mais e mais profissionais escrevessem livros semelhantes. A geração que inovou a imprensa brasileira, aquela que chegou às redações a partir dos anos 50, morre sem fazer o obituário. As gerações que tiraram a imprensa brasileira do provincianismo amador, as dos anos 60 e 70, deixam o aquário em silêncio. Raríssimas pérolas brilham como A regra do jogo, depoimentos e artigos de Claudio Abramo que amigos e admiradores colheram e publicaram depois da morte do jornalista. Contam-se nos dedos relatos pessoais, vivos como o de Alencar. Contam-se nos braços histórias de jornais. É inacreditável que um país com a pujança cultural do Brasil não levante a memória do Correio da Manhã ou da Folha do Norte, e nas livrarias não se encontre uma biografia de Edmundo Bittencourt.

Com a ousadia típica dos repórteres, Alencar registrou uma parte de sua trajetória pelas redações. É interessante notar como parece haver um padrão nesses relatos, comparando o de Alencar com mais antigos e um e outro recente, como os livros de Mario Hora (48 anos de jornalismo), Francisco Patti (A cidade sem portas), Cunha Motta (Os rapazes da banda), Joel Silveira (Tempo de contar). Como que envergonhados de fazer a própria reportagem, na falta de outra melhor, eles alinham causos e casos alternados no tempo e ajudam-nos a entender a imprensa e a sociedade de seu tempo. Uma segunda marca forte de livro de jornalista, impressa também em Sorte e Arte, é o elogio da transgressão e da rebeldia, e o destaque para a solidariedade e situações cômicas, características de profissionais mais antigos. Quando eles se juntam, ou quando apenas um junta suas histórias, aliviam o fardo com humor, afeto e um certo desprezo pelas normas. Confira já na epígrafe. O sublide de Sorte e Arte é a sinceridade. É mercadoria obrigatória, certamente, mas rara nas prateleiras da memória. A sinceridade - não só a verdade, mas a desusada e desgastante sinceridade - está para o jornalismo como o selo para o envelope. Alencar cola uma estampilha de franqueza no relato "Como foram feitas algumas reportagens que você leu". Quando acaba a leitura, entendemos o que ele diz num dos primeiros capítulos, o do "sheik faroleiro": "Perdi muita fonte e até amigos nesse jogo. Não me incomodo. Gosto mais do leitor". 

A isso podemos louvar como ausência de heroísmo. Alencar foge da benevolência da autobiografia, em geral escrita com a pinça da memória seletiva e o lustro do narcisismo. Ah, como somos maravilhosos os jornalistas. A cada depoimento que ouço, a cada palestra que assisto, a cada entrevista que leio, a cada livro que folheio, ele está lá, resplandecente como o ego do autor, o heroísmo que nos torna guerreiros magnânimos. Como combatemos a censura, como dobramos o ministro, como publicamos só a verdade e toda a verdade, como subjugamos o patrão, como, apenas com um lide bem escrito, desviamos o asteróide que iria chocar-se com a Terra...assim nos louvamos. Se confiássemos a tarefa a nossas mães, o resultado não seria muito diferente. É inevitável desconfiar que, se esses repórteres-memorialistas escreveram sobre os outros com idêntica seletividade e tanta parcialidade, que maus jornalistas foram. 

Não espero que sejamos repórteres fiéis de nossa história pessoal. Afinal, com a exceção de Samuel Wainer, ninguém faz livro de memória para enlamear-se na revelação de erros e vilanias. Demarcada a exceção, uma certa técnica de contar os fatos deve guarnecer a narrativa biográfica. Este bom exemplo Alencar nos dá. Ele não se elege protagonista de uma epopéia de lavra própria. Conta, não sei se todos, erros e bobagens que cometeu na profissão. Quantos de nós teriam a coragem de revelar que algum dia mentimos, chantageamos, usamos a gazua da arrogância ou pisamos nas leis para conseguir uma reportagem? Trinta anos depois, concluo que para a maioria valeu a lição de Bill Granger, do jornal americano Chicago Tribune: "Se você vai a seminários sobre jornalismo e ouve doutos professores e pomposos editores debaterem a ética e a moral do jornalismo moderno, certamente terá uma idéia errada. Toda aquela lengalenga não tem nada a ver com a apuração de uma reportagem e o ato de colocá-la no papel. Somente existem duas regras no jornalismo real: Consiga a reportagem. Publique-a."

Temos tratado desses assuntos no Instituto Gutenberg - Centro de Estudos da Imprensa, de cujo boletim Alencar é conselheiro editorial. O método jornalístico parece ter o erro como objetivo. Repórteres são atirados diariamente, com um carro, motorista e mesada de estudante, em tarefas que na Ford Corporation demandariam dez pesquisadores, seis semanas de trabalho e um orçamento de 50 mil dólares. Ninguém ameaça, mas sabem que a cláusula secreta no contrato de trabalho reza: "Não voltem sem a reportagem". Claro que deixam um rastro de cavalo de Átila. Erro é erro e um jornalista não pode cometer um crime a pretexto de denunciar outro. Apesar de não transigir com a transgressão gratuita, de não aprovar o caminho mais rápido e econômico para fazer a reportagem e atropelar a ética, de torcer o nariz para o roubo dos documentos antes de pedi-los à fonte, de usar a invasão do prédio público como moeda de troca da matéria, um leitor honesto sairá mais íntegro deste livro se observar o universo do autor: o interesse público. Não se lê aqui, como testemunho das prioridades do repórter, uma só linha sobre a depressão da atriz, os namorados do cantor, o filho bastardo do presidenciável. 

Prevalece aquele velho senso de equanimidade que dignifica o jornalismo: os "personagens" de Alencar são o industrial ladrão, os empresários fraudadores, o sheik megalomaníaco, o senador mudo, o boxer-presidiário, o grande roubo, o radiestesista incompreendido. Se um erro de edição prejudica camelôs, o repórter trabalha mais para restabelecer a verdade do que suou para encontrá-la. Dessas matérias-primas é trançado o livro que você vai ler, cheio de falcatruas, é verdade, a começar do título, um exemplo acabado de propaganda enganosa: o que ele chama de arte é suor; o que diz ser sorte é puro talento. 


São Paulo, abril de 1998