Os sinos dobram pela lei de quotas



Sérgio Buarque de Gusmão

Um projeto de lei do deputado Paulo Paim (PT-RS) torna obrigatória a quota de 25% de negros e “afrodescendentes" nos programas de TV e de 40% nos comerciais. Volta e meia, sugere-se esta chamada “ação afirmativa” (do inglês “affirmative action”) para as universidades e serviços públicos. Com toda a solidariedade pela luta anti-racista, não é assim que se endireita a sombra torta da árvore.

Primeiro, cumpre reconhecer que a política de quotas embute um dilema: por pior que seja, põe em debate a discriminação, embora com outra forma de desigualdade. Num país com sólida tradição de preconceito, alicerçada em três séculos de escravidão, toda iniciativa pela igualdade deveria fazer de cada um de nós construtores de uma autêntica democracia racial. Não é esta, no entanto, a direção de amplos setores do movimento negro, incluindo a ala de que faz parte o deputado Paim. Transplantam para o Brasil o modelo de choque birracial dos Estados Unidos – país onde a abolição, conquistada em 1863, no bojo de uma sangrenta guerra civil que definiu a formação da burguesia nacional, não significou a isonomia jurídica nem respeito humano aos negros. Até os anos 60, a discriminação foi legal, principalmente nos estados do sul.

Nos dois países, as duas grandes linhas ideológicas correm de forma sinuosamente curiosa. No Brasil, a “ação afirmativa” é bombardeada pelo pensamento liberal e esquerdista, a exemplo de Darci Ribeiro (“mestiço é que é bom”), embora tenha, não se pode negar, uma mãozinha da direita intelectualizada, como o filósofo Olavo Carvalho. Nos Estados Unidos, o combate sai sobretudo da corrente que se reivindica apenas conservadora que combate a “ação afirmativa”. O economista Thomas Sowell é um crítico contundente das lideranças do movimento negro americano e suas alianças com os democratas liberais – os quais, segundo Sowell, “são tão amigos dos negros quanto Iago era de Otelo, alimentando suas suspeitas e promovendo sua paranóia.”

Importar o modelo da beligerância racial americana constitui não só um equívoco de movimento social como, também, um plágio cultural semelhante à ação da elite branca e brancarona do Brasil que adoça a boca das crianças no Dia das Bruxas (aqui também chamado de “Halloween”) e ignora o similar nacionalizado de Cosme e Damião. O Brasil, um laboratório altivo da mestiçagem, tem potencial para resolver os conflitos de forma muito mais rica e complexa que a camisa-de-força talhada pela visão de mundo preta e branca do rancor americano.

Invertida a contradição, a “ação afirmativa” segue, com os pés trocados do curupira, o rastro do antigo sistema de “apartheid” da África do Sul e dos cartões que o  Dr. Holerith forneceu ao nazismo. Em miúdos, seus executores teriam de preparar um índice de negritude para distribuir papéis em novelas e vagas na universidade, e aí rebolaríamos na espiral  do ADN. Carla Perez é branca? No segregacionismo sul-africano a dançarina da garrafa seria discriminada, porque carrega os genes de um pai negro. Camila Pitanga, aqui já chamada de triunfo apolíneo da miscigenação, é negra, mulata ou parda? Sinceramente, eis um critério abjeto para escolha de um ator. Teríamos um leão-de-chácara de elenco a dizer “você entra porque é negro, você sai porque é branco”. Para avacalhar de vez esta idéia de jerico, pode-se duvidar que se o esbranquiçado Michael Jackson fizesse um comercial no Brasil entraria na quota dos negros.

Meti a mão nesse galho de espinhos no artigo Nem branco nem preto, por rejeitar como moralmente indefensável qualquer ato baseado na cor da pele das pessoas. Ela não pode ser salvo-conduto de um aluno para a universidade ou de um ator para uma novela. No estado americano de Missouri a política de quotas já causou revolta. Estudantes recorrerem à justiça com o argumento de que alunos brancos bem preparados eram preteridos por alunos mal preparados que levavam a vantagem “politicamente correta” de serem negros. A justiça garantiu a matrícula dos bons alunos. É para esse rio de pedras que nos leva a canoa furada das quotas.   


Reserva de mercado no futebol

Da usina de idéias politicamente incorretas, brota um desconforto com jogador estrangeiro no Brasil, como o iugoslavo Petkovic, do Flamengo. Em geral são bons de bola, como demonstraram o goleiro Rodolfo Rodriguez e o zagueiro Figueiroa, e mesmo Dario Pereira. Os argentinos, como os antigos Doval e Mancuso, e agora Sorín, no Cruzeiro, agradam a torcida por causa do suor com que regam a camisa. Mas sou a favor de uma reserva de mercado informal, um código não escrito pelo qual os cartolas dispensariam os estrangeiros. Certas coisas não se compram, fazem-se em casa. São mercadorias manufaturadas com alto valor agregado de auto-estima nacional. Não se pode entregá-las aos caprichos do mercado, que, em nome da racionalização dos custos e da competitividade na globalização, é capaz de fazer o Pará importar tucupi da Nigéria, maior produtor mundial de mandioca. O Brasil já compra leite de coco do Sri Lanka e o dendê vem até da Alemanha.

Há uma certa dose de humilhação na importação de jogadores de futebol por um país opulento em craques – e de produção ininterrupta. As peneiras dos grandes clubes não têm sequer agenda para testar a rapaziada que diariamente passa por seus campinhos em busca da inclusão social. Chegam sem chuteiras e sem proteínas. Só na peneira do pequeno São Cristóvão do Rio são filtrados cerca de 18 mil candidatos por ano. O duro vestibular é feito com pressa que pode render arrependimento eterno. O Palmeiras rejeitou um jovem chamado Rivelino.

O Brasil é exportador de craques. Na papelada que a CBF mandou para a CPI da Nike, compreendendo o período de 1989 ao ano 2000, havia 9.030 contratos de brasileiros no exterior. Só no ano passado emigraram 701 atletas para ensinar a arte da bola ao mundo. Por tanta fartura, foi com desgosto que vi o grande zagueiro Gamarra, então no Coríntians, ser eleito o melhor jogador do futebol brasileiro de 1999. Seu pai, na TV, não cabia de contentamento. “O melhor do Brasil”, dizia, e repetia, com outra dose de humilhação uruguaia: “Do Brasil”. A reserva de mercado é só uma idéia controversa, daquelas que um publicista sensato limitaria ao balcão do botequim.  

Flor do Lácio

Quando enchemos a boca para chamar a Nike de náique, seguimos o (bom) modelo americano de submeter as demais línguas à pronúncia do inglês. Nike é vocábulo grego, quer dizer vitória, e pronuncia-se níque, mas ganhou o som inglesado na cauda da multinacional americana de material esportivo. Daí não me conformo que site, que deveríamos pronunciar síte ou escrever sáite, tenha sido abonada no português com um fonema estranho ao idioma.

 

Dos leitores

Ângelo Paulo, de Belém, diz que a Travessa da Estrela mudou para Mariz e Barros há mais tempo do que supõe o colunista.

Leila Macias, de São Paulo, que gosta de dizer “axi”, não se conforma com a mudança de 15 de Agosto para Presidente Vargas.

L. Lima, do Rio, põe em discussão a origem da feijoada.


Miscelânea

  • Justiça seja feita: Leão relacionou 35 jogadores para a Copa das Confederações por exigência (ridícula) da Fifa. Mas o afunilamento para 23 não eliminou surpresas como Magno Alves e Evanílson, que seriam Pelés em Samoa. 
  • Alunos da Universidade de Brasília protestam, em frente ao Congresso, baixando as calças e curvando as nádegas, naquela posição em que Napoleão perdeu a guerra. É protesto de quem se sente por baixo.
  • Democracia é bumerangue. Empresários do PNBE mandaram uma pizza para os senadores. O carlista Waldeck Ornelas (PFL-BA) devolveu a sua dizendo que eles fariam melhor se pagassem os R$ 76 bilhões que devem ao INSS.
  • Alguma razão FHC tinha quando disse que é fácil governar o Brasil. O povo ajuda a reduzir o prejuízo causado por governantes ineptos. Anunciada a catástrofe da falta de energia, a população começou a economizar por conta própria. Fiquei comovido ao ver um aposentado, que dizia ganhar um salário mínimo e meio, gastando R$ 56 numa luz de emergência. Só Castro Alves para descrever tanta iniqüidade. 
  • A copa, primeiro filme do Butão (1999), uma jóia da sétima arte, é um fenômeno da propaganda boca-a-boca. No meio da sessão tive um estalo: o enredo é tão inverossímil que não pode ter sido inventado pelo roteirista (Khyentse Norbu). Nos créditos, a confirmação: o filme foi baseado numa história real.
  • Nenhum escândalo desses biógrafos que bisbilhotam o lixo das celebridades diminui minha admiração por Mao Tse-tung. O cineasta francês Jean-Luc Godard, hoje setentão, estrela do último Festival de Cannes com um petardo contra Hollywood, disse que Mao foi o maior cozinheiro do mundo: deu de comer a 1 bilhão de chineses.
  • Nunca soube de um lugar que tivesse mais ladrão do que Belém. Mas as notícias de Castanhal dão conta de que o páreo está duro. 
  • Pesquisa da Folha de S.Paulo Águas de março, de Tom Jobim, como a melhor música brasileira. Aquarela do Brasil, de Ari Barroso, ficou em quinto lugar. Bem, é escolha intangível de 214 jurados. Eu votaria na Aquarela. Mas convém assinalar que Tom Jobim tirava ouro do piano. Quando se juntava a Vinícius, bamburrava na partitura.

    20/maio/2001

Publicado originalmente na revista virtual Belém do Pará