O que se deve ler para conhecer o Brasil



Sérgio Buarque de Gusmão

Na primeira edição de seu clássico O que se deve ler para conhecer o Brasil, o historiador Nélson Werneck Sodré ponderou que o antologista “jamais satisfaz o gosto de todos, não chegando talvez a satisfazer o seu próprio...” Embarcando neste risco, saem aqui, em gotas semanais, indicações de leituras para quem quer entender e aprender a gostar do Brasil. Será uma lista de 12 obras, algumas com mais de um livro ou tomo, como é o caso da primeira sugestão, História nova do Brasil.

É uma coleção de seis livros, que tem um inconveniente sério, quase suficiente para retirá-lo da lista: está fora das livrarias. Editada em 1964 pela Brasiliense, foi proibida pela ditadura militar. De seus autores, um era conhecido, e escapou da prisão por ser general do Exército, justamente Nelson Werneck Sodré. Os demais foram presos, alguns torturados, outros se exilaram, mas a coleção ficou como um painel de referência, uma obra de consulta sobre os principais fatos e ativistas da história brasileira. Infelizmente, uma reedição planejada pelo editor Cláudio Giordano, em parceria com a Loyola, em 1993, foi interrompida: saiu apenas o primeiro volume, com apresentação de um dos autores, o historiador Joel Rufino dos Santos. Leia um resumo desses incidentes em O fim da Historia Nova.

História nova do Brasil serve como introdução e guia rápido mas nutritivo para a compreensão da sociedade brasileira, sem a grandiloqüência e as omissões da chamada historiografia oficial. Tampouco abona a visão crítica exagerada, quase pessimista, ou negativista, de uma certa corrente, representada na academia pela Universidade de São Paulo e, na política, pelas alas jacobinas do Partido dos Trabalhadores, que revêem o passado do Brasil com a conclusão de que tudo foi e deu errado. A História nova ao menos exalta as lutas dos que quiseram fazer deste um grande país.

Com o viés do materialismo histórico, mas sem perder de vista os homens que fazem a história, embora não a façam como a desejam mas como podem fazê-la, a coleção valoriza as lutas do povo, mostra que o fato histórico transcende os governantes e deve ser sempre trançado a outros e outros cujas raízes estão na forma como uma sociedade produz e faz circular mercadorias, idéias e interesses diversos. Um passeio desde o Descobrimento, até a formulação da Revolução Brasileira, ajuda o interessado a compreender por que o Brasil é o que é e não o que muitos patriotas queriam que ele fosse.

Uma curiosidade: o paraense Serzedelo Corrêa é citado no quarto volume (Abolição/Advento da República/Florianismo) por sua participação, como ministro da Fazenda, no governo nacionalista do marechal Floriano Peixoto – descrito como interessado na industrialização e autonomia do Brasil, ou seja, muito mais que uma ditadura de consolidação da República como tanto se diz.

Obra: História Nova do Brasil

Autores: Joel Rufino dos Santos, Maurício Martins de Mello, Nélson Werneck Sodré, Pedro de Alcântara Figueira, Pedro C. Uchôa Cavalcanti Neto, Rubem César Fernandes.

Editora: Brasiliense (1964), Giordano/Loyola (1993)


Um negócio indecente II

A Vale do Rio Doce é sócia da estatal Cemig na construção de hidrelétricas em Minas Gerais. Já participa da usina de Igarapava, ajuda a financiar a construção da usina de Porto da Estrela e, agora, entra no consórcio para construção da hidrelétrica dos Aimorés. É obra de R$ 350 milhões – dinheiro que a Vale poderá transferir dos subsídios acintosos que recebe da Eletronorte para manufaturar alumínio em Barcarena.

Segundo a Folha de S.Paulo (“Eletronorte perde US$ 200 mi com subsídio”, 31/maio/2001) a Albrás é a companhia que recebe a maior ajuda do cidadão. Em abril, a Albrás pagou R$ 26,92 por mWh – a metade do que você paga para ter uma geladeira em casa.

Grandes consumidores industriais, que produzem riquezas, dão empregos, geram divisas com exportação de produtos, como é o caso da Albrás, têm a obrigação de gerar energia própria para projetos que ajudam a economia nacional mas, também, nos lançam nas trevas do apagão. O subsídio à Albrás, e outros grandes consumidores de energia barata na Amazônia, concedido no apagar das luzes da ditadura militar, em 1984, deve ser revisto o quanto antes.


Flor do Lácio

Tijolos prosódicos – Uma das batalhas pela preservação (não incolumidade) da língua no Brasil é o aportuguesamento das palavras necessárias ao enriquecimento do idioma. Não há dúvida de que muitos termos ou expressões estrangeiros são adotados e tornam-se correntes, e, assim, indispensáveis, como dumping, ranking, royalty, commodity. Mas devem ser naturalizados, transliterados como se fala, tal qual fazíamos no passado, a exemplo de nocaute (de “knock-out”).

Algumas importados recentes escaparam do verniz nacional, como show, que em português deveria ser “xou”, tal como “shampoo” virou xampu. A Academia Brasileira de Letras, que prepara o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) , com força de lei, relaxou e transcreveu numerosos tijolos prosódicos. Alguns parecem tão instalados que será difícil removê-los ou afeiçoá-los ao idioma, como site e e-mail. Numa humilhação sem procedentes, a Academia ensina a pronunciar o palavrão: “saíte” – quando era assim que ele deveria ter sido incorporado, se fosse, ao português falado no Brasil. Em Portugal, usa-se o velho e bom sítio.

Terminologia do apagão – No palavreado da crise energética populariza-se, também, leiturista, que o Aurélio define como “Funcionário que lê as marcações de consumo de água, eletricidade, gás, etc.” Esse pobre homem ficará tão estigmatizado quanto os laçadores de cachorro da carrocinha.


Miscelânea

  • Um livro de frases de Machado de Assis foi montado por Lúcia Leite Ribeiro Prado Lopes (Editora 34, 2001). O bruxo do Cosme Velho foi mesmo um “frasista genial”. Algumas estão incorporadas ao dia-a-dia sem que nem suspeitemos da origem, como no caso de “ao vencedor, as batatas” ou “é melhor cair das nuvens que do quarto andar.”
  • Leio a esmo trechos dos Lusíadas pelo prazer da sonoridade. O texto puro, sem as notas que nos iluminam mas interrompem o fluxo melodioso da leitura, pode ser percorrido como demonstração de que poesia é a boa vizinhança das palavras.
  • Os ecologistas que me perdoem, mas não há apelo para a salvação das espécies que me faça preservar determinados insetos e todos os tipos de cobras. Duvido que a natureza dê a mínima para o futuro do carapanã. Rezo por um meteoro seletivo que, tal como aconteceu com os dinossauros, extermine essas pragas das nossas vidas.
  • A melhor crítica do governo do apagão é feita, três vezes por semana (segundas, quartas e sextas, às 15h30min), no “Monkey News” (que não se perca pelo nome...) de José Simão e Paulo Henrique Amorim. É de rachar de rir. O mínimo de que chamam FHC é de “Fhnistão, O Rei da Vela, Patriarca da Dependência, O Iluminista, Déspota Escurecido”. Ninguém é poupado, nem o “Malanta” nem dona Rute. Os internautas ajudam. Um sugeriu que FHC racione em 20% o seu mandato.
  • E pensar que já tivemos um presidente chamado Carlos Luz.
  • Vantagens do racionamento: não há meio de voltar aquele trenó patético, a correr num trilho da João Alfredo, com um caboco pardo fazendo Papai Noel.
  • Vamos copiar mais um costume americano: o do banho três, quem sabe duas vezes por semana. Os índios ensinaram os portugueses e os africanos a se lavar diariamente.


03/j06/2001


Publicado originalmente na revista virtual belemdopara.com.br