O que se deve ler para conhecer o Brasil – II



Sérgio Buarque de Gusmão

Dicionário do Folclore Brasileiro – Obra monumental de Luís da Câmara Cascudo, é a segunda indicação da série “O que se deve ler para conhecer o Brasil”. Figura na relação, tal qual a primeira indicação, História nova do Brasil, como obra didática, de formação ou referência para os que desejarem empreender um estudo sistemático do País. O título ficou infelicitado pelo significado menor que a palavra folclore assumiu entre nós, e talvez fosse mais correto se abreviado para Dicionário do Brasil.

Homem dos 1.001 estudos, considerado enciclopedista, gostava de ser chamado de antropólogo (“Etnógrafo é a p.q.p....”), Cascudo (1898-1986) nasceu e viveu na Cidade do Natal, como chamava a capital do Rio Grande do Norte, onde é cultuado. Fazendo jus ao clichê de memória prodigiosa e vasta erudição, acumulou enorme conhecimento do Brasil real, percorrendo um país trançado pelas três matrizes étnicas que forjaram a nação, os índios, os europeus e os africanos, tripé que exalta e enlaça em sua obra. Faz a história viva do povo, não a surrada crônica das elites.

É autor prolífico e prolixo. Escreveu mais de cem livros, e ainda hoje acham-se originais inéditos  em sua biblioteca, que ele chamava de “Babilônia”. Dos quatro ou cinco que li, incluindo História da alimentação no Brasil História da cachaça, o Dicionário é o melhor de todos justamente porque o formato de verbetes conteve-lhe a verborragia, circunscrevendo-o ao tema e o impedindo de esparramar-se nas digressões e especulações que marcam sua obra. Cascudo às vezes é atilado, deduzindo, ora é cauteloso, omitindo-se. Na História da alimentação não ousa, por exemplo, cravar uma opinião sobre a origem da feijoada, embora, sabiamente, despreze essa lorota recidiva de que o prato nacional nasceu na senzala.

O Dicionário, idealizado em 1939, e esboçado dois anos depois, consumiu mais uma década de pesquisas para rechear centenas de verbetes que vão da aaru, um bolo indígena, a zuzá, um chocalho de pequi. Contou com a ajuda de extensa bibliografia e de uma plêiade de colaboradores, como o paulista Alceu Maynard de Araújo, o baiano Edson Carneiro e os paraenses Armando Bordalo da Silva e Bruno de Meneses. Saiu em 1954, pelo Instituto Nacional do Livro, e consagrou-se numa edição de bolso da Ediouro, em formato de difícil manuseio para a espessura de 930 páginas. Recentemente, foi reeditado em formato padrão (16 x 23 cm) pela Global Editora, com acréscimos introduzidos por Laura Della Mônica, colaboradora do autor por mais de 30 anos.

Com feição de ata cultural, o Dicionário é um inventário altivo, orgulhoso mesmo da sociedade nacional, preparado por um estudioso para o qual “O Brasil não tem problemas, só soluções adiadas.” Usos, costumes, comportamentos, as cantigas, a música e a literatura orais, a engenhosidade popular, as assombrações e as visagens e as superstições, as lendas e os mitos, o vocabulário, a roupa e a ausência dela, a festa e o luto, as comidas e as bebidas, a religiosidade de todo naipe, os tipos que fizeram a cultura e deram identidade ao Brasil desde a Colônia – tudo está lá, documentado, com pesquisa erudita avalizada pelo depoimento do povo.

Ao contrário de Gilberto Freire, que em Casa Grande & Senzala dá excessivo peso ao Nordeste na descrição da sociedade patriarcal, desprezando os cenários do Sul e da Amazônia, Cascudo é pródigo em registrar a contribuição do índio à cultura brasileira. Não há lenda, folgança e expressão importante que deixe de figurar no livro. É leitura prazerosa, instrutiva, a ser feita de forma linear ou salteada, escolhendo-se os tópicos da preferência. Um ponto alto da obra é a costura da assimilação das tradições portuguesas, comuns nas festas populares e religiosas, às vezes permeadas de signos africanos ou indígenas, como no caso do çairé, uma importação cultural dos jesuítas entoada na língua geral.

Cascudo abona a ortografia de um dos meus verbetes preferidos, Caboco, descrito como “O indígena, o nativo, o natural, mestiço de branco com índia”. Cita o precioso livrinho de José de Carvalho, O matuto cearense e o caboclo do Pará, publicado em Belém em 1930, para exaltar a argúcia de um brasileiro vilipendiado pelas teorias racistas – e há tanto tempo que já em 1755 dom José editou em Lisboa um alvará que proibia que os mestiços fossem chamados de cabocos porque a palavra era altamente injuriosa. O Dicionário nada mais é que um guia caboco do povo brasileiro.

Obra: Dicionário do Folclore Brasileiro

Autor: Luís da Câmara Cascudo

Editoras: Ediouro e Global


Símbolos do poder

O embaixador de Portugal, Francisco José Laço Knopfli, foi a Belém comemorar, em 10 de junho, a data nacional de seu país, que assinala o dia da morte do poeta Luís de Camões. Segundo O Liberal, o presidente do Conselho das Comunidades Luso-Brasileiras, Antônio Lourenço, disse que “O Pará é o estado mais português do Brasil”, referindo-se as tantas cidades paraenses batizadas com nomes daquele país e os doze mil portugueses que vivem no Estado”.

De fato, portugueses se surpreendem quando ouvem os nomes das cidades paraenses, a começar de Belém, homenagem à praia de onde partiam as naus dos navegadores do século XV. A repetição estende-se a Faro, Alenquer, Almeirim, Aveiro, Bragança, Vizeu, Santarém, Alter do Chão, Portel, Porto de Mós, Ourém, Salvaterra, Oeiras, Breves, Baião, Óbidos e tantas outras. Quanto mais antiga a cidade, maior a possibilidade de o nome ser português, e há uma razão histórica para isso: o decreto do Marquês de Pombal que, em 1725, expulsou os jesuítas do Brasil. Uma das medidas paralelas de Pombal foi proscrever os nomes indígenas das vilas e povoados, e impor a toponímia lusa. Todo poder cria seus símbolos.


Flor do Lácio

Celotex – Colt Silvers, hilariante, traz de volta uma palavra em vias de extinção, ao falar de Dico, “Um dos melhores goleiros que o Pará já teve. Era tão baixinho que devia ter sido goleiro de celotex.” Celotex, o nome primitivo do brasileiríssimo futebol de botão. Até onde sei, o jogo foi inventado no Pará, no começo do século, e o nome, dado por Geraldo Décourt, foi tirado das chapas de fibra mineral fabricadas pela empresa americana Celotex Corporation, que serviam de campo para o jogo. O Aurélio não registra a palavra, mas ela é reconhecida pelo Vocabulário Ortográfico da Academia. É um pequeno tesouro que se desmancha no tempo.

Pitiá – Peço ajuda aos leitores que cabem na Kombi: o que é pitiá? Conhecem algum registro literário desta palavrinha?


Miscelânea

  • FHC e Leão são farinha do mesmo paneiro. Jogam no time do “eu ganhei, nós empatamos, vocês perderam.” Nenhum dos dois estava à altura dos altos cargos que assumiram.
  • Leão chegou à Seleção porque não tinha problemas com o imposto de renda. Osvaldo Oliveira, então no Flamengo, e Filipão, já no Cruzeiro, poderiam ter sido os técnicos – mas ganhavam tanto por fora que ficaram com medo de a imprensa passar sobre eles o rolo compressor que esmagava Luxemburgo.
  • Cena brasileira: Maurício, da seleção de vôlei, entrega, com as mãos, a bola ao filho de um ano e meio. O garoto olha pra câmera, põe a bola no chão da quadra, e chuta.
  • Um negócio indecente - III : do economista Ignacy Sachs, no jornal O Estado de S. Paulo (“As diabruras de Saci. Viva a crise”, de 09-maio-2001), mencionando, sem dar os nomes, o subsídio à Albrás e à Alumar: “Meteu-se [o Brasil] na exportação de energia elétrica subsidiada, embutida no alumínio produzido por multinacionais felizes de poder contar com esta benesse.”
  • Não dá pra disfarçar: o governo mandou o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Amauri Bier, pedir que o FMI autorize investimentos no setor de energia. Parece coisa de filial implorando recursos à matriz.
  • Chama-se Machado de A a Z – um dicionário de citações, o livro com frases de Machado de Assis.
  • Na coluna “Uma lágrima verde pela Sudam”, de 25/março/2001, escreveu-se aqui: “É incompreensível que num universo de 508 funcionários (nem tantos: a Câmara Municipal de São Paulo tem 2.200) não surgissem resistências além dos pareceres de um e outro procurador – pareceres que em geral não impediram o desvio do dinheiro público.” Pois bem, o Ministério Público já indiciou 150 servidores sob acusação de fraudes.
  • Só o estado de São Paulo vai perder R$ 350 milhões em impostos não recolhidos por causa da crise de energia. Alguém tem de pagar por isso, na mesma moeda em que são cobrados os que violam painéis eletrônicos ou fraudam os incentivos fiscais.


10/06/2001


Publicado originalmente na revista virtual belemdopara.com.br