O mito do bom selvagem


Sérgio Buarque de Gusmão 


A escravização dos “tson-djapa”, nome japonês dado aos índios do rio Jutaí (AM), recém-contatados pela Funai, é mais uma advertência aos que idealizam os indígenas como modelos perfeitos da natureza humana. Segundo o Correio Braziliense (“Índios que vivem como escravos de outros índios”, de 8/4), os vizinhos canamaris tutelam os “tson-djapa” tal qual uma potência colonialista explora uma possessão. “São obrigados a caçar, pescar e plantar. Não podem ter pajé nem cacique. Obedecem ao chefe dos canamaris e recebem quinquilharias em troca: fumo, sal, anzol e roupas velhas,” informou o jornal. “Eu que mando neles, eu que sou o cacique deles”, disse Aru, o chefe dos canamaris. É o FMI das selvas. 

No Descobrimento, os tupinambás guerreavam, matavam e comiam adversários, por via oral, em luta por poder e território. Escravizavam os prisioneiros. Outra lenda urbana diz que os índios eram conservacionistas por natureza. Nada mais falso. A forma de vida estava relacionada ao desenvolvimento das forças produtivas, logo, ao nível da atividade econômica. 

Não devastavam a floresta porque não tinham as ferramentas – Cabral encontrou-os na idade da pedra lascada. Não matavam duas antas para comer uma porque desconheciam as técnicas de conservação de alimentos. Conhecendo o fogo, faziam queimadas. Se tivessem machado ou arado, gerariam uma economia de troca, domariam a natureza para produzir bens e negociar os excedentes. Foi isso que fez a grandeza e a miséria da aventura humana. 


A morte mansa da Sudam 

A Sudam morre bovina e mansamente. Tanta roubalheira paralisou as lideranças da Amazônia, ao contrário da Sudene, defendida à boca larga pelos governadores do Nordeste. Os nordestinos sublinham que lá é diferente, mas se esquecem de que tão logo a Sudam seja uma fatura liquidada, o arrastão da mídia engolfará a Sudene. 

A elite de São Paulo olha para o Brasil atrasado como os ingleses miravam a Índia. A Folha (12/4) diz em manchete que as duas autarquias “devem consumir R$ 10 bi” no período de 1995 a 2001. Parece muito? Noutra página se lê que essa montanha de dinheiro equivale ao que o país gasta, a cada seis meses, com acidentes de trabalho. 

Até a oposição vacilou. Na primeira hora, coube a vereadores de Belém (Paulo Fonteles, Ana Julia Carepa, Marinor Brito) defender a sobrevivência da Sudam como um órgão de desenvolvimento regional, desde que escoimada da bandalheira. Na Câmara federal, o deputado Babá (PT) tomou o bonde errado: propôs uma CPI, que seria o palanque para última pá de cal do sepultamento sumário. Lideranças articuladas negociariam o saneamento e a continuidade. Num governo popular, a Sudam ficaria com um dos maiores brasileiros do nosso tempo, Camilo Viana. 


Um prazer dentro da lei 

Criadores particulares vão oferecer aos restaurantes 15 toneladas de tartaruga só neste ano. Comer tartaruga com selo do Ibama tira-nos a culpa, afasta-nos da ilegalidade e nos protege da ira verde dos ecologistas. A reprodução assistida, a exemplo do tabuleiro de Monte Cristo, no Tapajós, tem garantido a sobrevivência abundante da espécie na natureza – a desova na praia é protegida, a viração, proibida, e centenas de milhares filhotes ganham o rio. 

A indicada para banquete é a tartaruga verdadeira (Podocnemis expansa), que os especialistas classificam como cágado, reservando a denominação tartaruga para as espécies marinhas. Um roteiro sentimental da tartarugada outrora farta foi traçado pelo escritor Osvaldo Orico, no livro Cozinha amazônica, curiosamente publicado pela Universidade Federal do Pará, na gestão de Aloísio Chaves, em 1972 – quando já vigorava, desde 1967, a lei de proteção à fauna. 

Cevado na mesa famosa de dona Pequenina, mulher do prefeito Alcindo Cacela, o glutão Orico (1900-1981) ensina a degolar, a “tirar alma” (extração da medula, “alva e delgada”, para paralisar “a bicha”), a colher o sangue, a apartar a banha e isolar o fel, a abrir o casco, a esquartejar e separar as carnes e com este tesouro das entranhas preparar um festim de Rabelais. Sarapatel, paxicá, guisado, bife, peito, ou mesmo um cozido dos quartos no tucupi, sem falar das farofas e picadinhos e dos ovos crus, lançados ao céu da boca com pingos de pimenta-de-cheiro no papel de estrelas. 


A volta dos nossos bens 

Portugal tornou-se o terceiro maior investidor no Brasil. Superado apenas pela Espanha e EUA, investiu 2,5 bilhões de dólares, no ano passado, e 2,4 bilhões em 1999. A maior parte é capital da Portugal Telecom na telefonia. Isso quer dizer que o dinheiro está voltando. Já não se aplica a malineza do padre Antonio Vieira, que, no famoso sermão do Bom Ladrão, de 1665, resumiu o saque do período colonial: “Perde-se o Brasil (digâmo-lo em uma palavra) porque alguns ministros de Sua Majestade não vêm cá buscar nosso bem, vêm cá buscar nossos bens”. 

A propósito: a obra de Vieira, reduzida a raras coleções em sebos, a preços de ministro de sua majestade (encontrei uma de quinze volumes por R$ 450,00), está sendo reeditada pela editora Hedra, com organização e notas de Alcir Pécora. 


Flor do Lácio 

Artesãos de palavras – O poeta Fernando Pessoa não gostava da palavra inglesa “football”. Sugeriu bolapé. Esforço vão, como o do filólogo Castro Lopes, que propôs ludopédio. Também não pegou. O povo foi de futebol, e criou numerosos brasileirismos para o jogo da bola, de arqueiro a zona do agrião, de banheira a trivela, de cera a sola, de lençol a torcida. O último neologismo designa o técnico: professor. 

Curioso é que a Academia Brasileira de Letras, responsável pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, registrou o neologismo do poeta português mas ignorou o do filólogo brasileiro. Oficialmente, podemos dizer bolapé mas não ludopédio, embora a segunda palavra seja mais usada que a primeira. 

Val de quê? – No Liberal: “Nevoeiro suspende operações em Val-de-Cães”. Nesta época de desmanche dos segredos do passado, o prefeito Edmílson Rodrigues poderia mandar um especialista desvendar a origem deste nome horroroso, que a maioria escreve Val-de-Cans. O máximo que se lê nos folhetos turísticos é que vem de uma base aérea americana, da Segunda Guerra, o que nada explica. O aeroporto, pelo menos, deveria chamar-se Julio César, pioneiro do vôo do mais pesado que o ar. 


Miscelânea

  • Austrália 32, Samoa 0. Como dizem os técnicos da Seleção Brasileira, não tem mais jogo fácil.
  • É ouro em pó o divertido artigo Vamos tombar a seleção, de Fernando Scaff. O escrete canarinho seria considerado símbolo nacional, como o Hino e a Bandeira. O Supremo Tribunal seria o tapetão. 
  • Apesar do baile da linha do Equador, o Brasil ainda é o primeiro na classificação da Fifa. São glórias eternas, como observou o historiador marxista Eric Hobsbawm, no livro Era dos extremos: “Quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará a pretensão do futebol à condição de arte?” 
  • Dourada a R$2,80 no Ver-o-Peso, e a freguesia reclama. Em São Paulo custaria no mínimo R$ 6, o preço da sardinha. Espécies de primeira, como namorado, saem por R$ 12. Peixe é um escândalo no Brasil. Difícil entender por que é mais caro que contrafilé. Não é questão de mercado, mas, talvez, de escala, a cultura de produzir pouco, para poucos, a preços escorchantes. 
  • Ninguém faz peixe tão bem quanto as cabocas do Pará. Na zona do Salgado, o mais barato e rejeitado, o jaraqui, sai divino da água de sal e coentro. Em Santa Catarina, revoltei-me com molho de tomate na tainha, mas o pior é que entra no tradicional camarão à baiana. Essas patacoadas pegam como sarampo. Ainda veremos no Teatro da Paz o musical “Tem ketchup no tacacá”. 
  • O nome da cidade (e da avenida do Guamá) é Igarapé-Miri e não Mirim, como escrevi. É forma abreviada. 
  • A idéia do governador Almir Gabriel de mudar a capital para Belo Monte tem o claro objetivo de conter o separatismo. No caso de Carajás, nada a opor. Há muito a região separou-se do Pará profundo e virou um sertão goiano-paulista. 


15/04/2001 

Publicado originalmente na revista virtual belemdopara.com.br