O fim da História Nova



Almanaque


Sérgio Buarque de Gusmão


Nem tudo que se perdeu na ditadura foi reencontrado. A coleção História Nova do Brasil, seis volumes proibidos e apreendidos nas livrarias em 1964, ao mesmo tempo em que seus autores eram presos e torturados ou se exilavam para fugir do pau-de-arara, nunca mais foi reeditada. É preciosidade rara em sebos. História Nova do Brasil refletiu a época em que foi produzida: agitação cultural, projetos de mudanças, planos de reformas, crítica drástica ao velho e elogio da utopia do novo. De seus seis autores, apenas um era conhecido nacionalmente na época: o general e historiador Nelson Werneck Sodré. Os demais eram professores ou estudantes universitários, hoje também muito conhecidos: Joel Rufino dos Santos, Maurício Martins de Mello, Pedro de Alcântara Figueira, Pedro C. Uchôa Cavalcanti Neto e Rubem César Fernandes.  

A introdução da obra já demonstrava sua diferença, ao se propor a alargar o estudo da História

"a) verticalmente: fazendo ingressar nele a sociedade, a economia e a cultura. Na maioria dos livros só cabem as grandes figuras; é preciso fazer aparecer o nosso povo;

"b) horizontalmente: fazendo ingressar nele os fatores condicionantes, às vezes determinantes, de ordem mundial. Para nós, não é possível explicar a História do Brasil sem inseri-la no quadro da História moderna e contemporânea; o Brasil, desde seu aparecimento até hoje, está ligado aos interesses mundiais." 

De cara eram bombardeados os compêndios adotados no ginásio e no colégio: os livros de Vitor Mussumeci, Borges Hermida, Vicente Tapajós, Joaquim Silva, Ary da Matta, Hélio Viana e A. de d´E. Taunay. As primeiras linhas, sobre o Descobrimento, naturalmente, traçavam uma rota de estudo e de combate, alinhando as distorções da bibliografia disponível - algumas delas, aliás, em plena voga, como a que mostrava Portugal como um país insignificante lançado à expansão pelo "gênio" do infante Dom Henrique. "Concepções simplistas, cômodas, não há dúvidas, mas quão distantes da realidade histórica! Combatê-las, corrigindo-as ou destruindo-as, conforme o caso, eis o nosso objetivo". 

Originalmente, a coleção saiu em fascículos patrocinados pelo Ministério da Educação e Cultura e, a seguir, pela Editora Brasiliense. O convênio com o MEC para uma obra que desancava a chamada historiografia oficial provocou protestos, mas a proibição da coleção comercial atraiu a solidariedade e a defesa da liberdade de expressão por parte de intelectuais e jornalistas. A coleção continha erros, minuciosamente apontados pelo historiador Arnaldo Jacobina Lacombe na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Nelson Werneck Sodré chamou Lacombe de "tira da historia".

Tirada do mapa, chegou a custar 50 mil cruzeiros no câmbio negro - quando um romance de Jorge Amado valia CR$ 2.500.

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Nota - O primeiro volume da coleção foi reeditado, em 1993, pela editora


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