O apagão da negligência


Sérgio Buarque de Gusmão

Queda de 1,5 ponto percentual na previsão do crescimento do Produto Interno Bruto (de 4,5 para 3%), prejuízo de 27 bilhões de dólares em bens e serviços que deixarão de ser produzidos, 6 bilhões de reais em impostos perdidos, 850 mil desempregados, caos nas cidades, insegurança, estresse da população. Como um furacão do mal, é este o cavalo de Átila que a Fundação Getúlio Vargas e o próprio governo desenham para o rastro do racionamento que vai reduzir em 20% o consumo de energia no país. Quem é o responsável, de quem cobrar, e como cobrar, tanto prejuízo?

Há momentos históricos em que o Parlamentarismo se apresenta como o gari político capaz de limpar a negligência do poder. Fosse o presidente Fernando Henrique Cardoso primeiro-ministro, poderia ser enxotado do cargo, e da forma mais humilhante, por causa da  incompetência e da embromação com que seu governo produziu e agora tenta mascarar a crise energética que retrocede o país a um cenário pré-industrial. Nada do que o governo diz sobre o assunto é sério ou verossímil.

A questão é simples como a lâmpada inventada por Tomás Édison há 120 anos: o setor de geração de energia foi entregue a São Pedro. No seu estilo eu-não-tenho-nada-que-ver-com-isso, o presidente pôs a culpa nos outros. Sugeriu que o problema origina-se dos governos Collor e Itamar. (o maior feito de FHC governo neste campo foi dobrar a compra de energia da Argentina). O alto escalão, que centraliza as decisões estratégicas, alega que desconhecia a gravidade do problema, como afirmou o novo “ministro do apagão”, Pedro Parente: “O quadro era pior do que nos tinha sido informado”.

Não faltaram advertências públicas, estudos técnicos, relatórios especializados para mostrar que o consumo de energia aumentava mais que a oferta e que os lagos das represas do Sudeste evaporavam na maior seca dos últimos setenta anos. O governo não construiu novas usinas e deixou as porteiras da água abertas como se os lagos estivessem transbordando. Represas existem para guardar água a ser usada na estiagem. Agora, toda sorte de problema virá com a treva. O Estado, nessas horas, gera uma sensação de impotência, nos faz vítimas indefesas e personagens da frase de Lorde Acton: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. 

Há de ter responsabilização individual para essas tragédias que empobrecem o país e sacrificam a população. Pense nisso quando, nos próximos meses, passar seis horas por dia sem poder ligar a TV. 

 

O crime como um valor

O psicanalista argentino, radicado no Rio, Contardo Galigaris, 52 anos, chama atenção, em entrevista ao Jornal do Brasil, para a violência do bandido brasileiro, em comentário sobre o pedreiro Alan Marques da Costa que participou de um assalto a uma casa do bairro de Santa Teresa em que trabalhava, e onde era bem tratado pela  fonoaudióloga Márcia Coelho Lyra, a quem estuprou e esfaqueou:

– A pobreza neste caso não é a chave. Acho até que a criminalidade urbana no Brasil tem um componente de violência física muito grande. É um dos poucos países do mundo onde se prefere esperar que o motorista chegue com a chave do carro, do que quebrar o vidro, fazer uma ligação direta e ir embora. E isso não é uma questão de burrice. Não é que os nossos ladrões não saibam fazer este serviço. É claramente uma preferência. Aqui se morre mesmo depois de se entregar o carro.

Caligaris, com o desconto da superficialidade e rapidez da entrevista de jornal, atribui tal violência ao passado escravista, onde havia domínio integral do homem pelo homem, inclusive do corpo. Pode ser. É um fenômeno a ser investigado com os atores diretos – os criminosos. A droga, principalmente o “crack”, que é desorganizador, ajuda a explicar a fúria dos despossuídos contra os possuidores, não se limitando aqueles a tomar os bens, mas a maltratar e muitas vezes torturar e matar as vítimas. Não há ideologia nesses atos malignos, nenhum sinal de revolta política, nem mesmo a “rebeldia primitiva” que o historiador marxista Eric Hobsbawm atribuiu a Lampião. Lampião foi um subcoronel do sertão, mais desabrido, um cangaceiro truculento, e só.

Um mérito da ousadia de Caligaris é restabelecer a responsabilização individual do criminoso. Ela é reconhecida pelo Direito Penal, mas está em baixa nos debates que tudo atribuem à exclusão social dos delinqüentes, à injustiça da sociedade, à falta de oportunidades aos milhões de miseráveis. Não é tão simples. No assalto urbano, a brutalidade é suplementar, exagerada, desnecessária ao sucesso do roubo em si. Assaltantes não atacam só para dar de comer aos filhos, para ter o tênis da moda, para desfrutar um tico da boa vida que vêem nos acintosos comerciais da TV. Assaltos como este do Rio, objeto da entrevista de Caligaris ao JB, demonstram à exaustão que o crime é um valor. O pedreiro Alan, de apenas 18 anos, gabava-se, enquanto brandia uma faca, de ter matado uns seis. Se trabalhava na casa da vítima, obviamente seria reconhecido – a gangue imobilizou quatro pessoas – como o foi, por uma menina sobrevivente, de 13 anos, também torturada. Logo, teria de matar todos.

Criminosos dão a impressão de que fazem do crime uma carreira. Gabam-se de feitos macabros – à exceção do estupro, que um código de delinqüente pune na cadeia. O normal, como agem seus colegas do colarinho branco, seria negar, mas assaltantes violentos têm orgulho da obra. É comum revelarem o que a polícia nem pergunta. Impressionou a postura presunçosa de Antônio Augusto de Carvalho, de 36 anos, o chefe da “gangue da batida”, que abalroava carros de moças, em São Paulo, para assaltá-las e às vezes seviciá-las. “Apresentado à imprensa” pela polícia, em 1997, irritou-se com um repórter que não parecia levá-lo a sério, e esbravejou: “Pergunta lá na Detenção quem sou eu, pergunta. Já assinei quinze inquéritos”. Era um profissional do mal exibindo o currículo.

 

Flor do Lácio

Falando bem – Diz a lenda que em São Luís fala-se o melhor português do Brasil. Com todo respeito pelos seguidores de Gonçalves Dias, o português mais bem falado do Brasil é o do Rio. Não importa a classe social. Mesmo os pobres, os de pouca escola, os alfabetizados na rua e os que só sabem ler números dizem as frases com sujeito, verbo e predicado, regência correta, sintaxe lógica. A dicção é ótima. Os cariocas comunicam-se bem, até porque falam alto e todos entendem o que dizem.  

Varanda de pobre – Por que será que tanta gente em Belém (e até Haroldo Maranhão em seus livros) fala e escreve “terrasse” ao invés de terraço? Talvez por que terraço seja varanda de pobre. A palavra estrangeira, inacessível à maioria, é uma forma de a elite distinguir-se da ralé .  Tolstoi abre o monumental Guerra e paz com uma longa frase em francês, a língua da afetada elite russa que a Revolução de 1917 varreu do mapa.

 

Luxemburgo para o penta

Telê Santana dizia que, como jogador, Émerson Leão era uma “liderança negativa”. Como técnico, agradou ao anunciar a volta do “futebol bailarino”, o que, sabe-se agora, vem a ser o baile que os adversários dão na Seleção. Na primeira convocação, já escalou o time titular, dando um sinal de que não tinha idéia da missão difícil num dos piores cargos da República, tão espinhoso quanto o de presidente da Funai. O barco faz água e o capitão faz experiências. Relacionar 35 jogadores para a Copa das Confederações constitui um desatino semelhante a bater pênalti com a mão. Desprezar os melhores “estrangeiros” é inverter o conceito de seleção. Mas serve para mostrar que o técnico está perdido na zona do agrião.

Comprovado que as denúncias da maria-chuteira Renata Alves eram armação e pretexto para a chantagem, e acertadas as contas com a certidão de nascimento e o Imposto de Renda, Vanderlei Luxemburgo ainda é o treinador certo para o penta. Amadureceu na tragédia pessoal. Perdeu o deslumbramento e a arrogância, parou de falar demais e de assediar manicures, concentra-se no futebol e mostra, no Coríntians, a difícil arte de levantar cadáver.

 

Miscelânea

  • Dizem que o conservador é um liberal que foi assaltado. Felizmente, talvez por nunca ter sequer presenciado um roubo, faço esforço para manter-me um liberal humanista. Mas a civilização, se é incompatível com governos que apagam a luz dos cidadãos, também não pode dobrar-se à selvageria das ruas.
  • De todas as colunas, a do torcedor-consumidor (“Seleção, na alegria e na tristeza”) foi a única que não provocou nenhum comentário de leitor.
  • O mercado editorial não parece tão ruim como gostam de se lamentar os editores. Fechando, enfim, as contas do ano passado, a Câmara Brasileira do Livro informa que o setor faturou R$ 2 bilhões – R$ 200 milhões a mais que em 1999. Livro, como jornal, não paga imposto, tem papel subsidiado, o custo do direito autoral é ridículo, mas o preço é para nos deixar iletrados. 
  • Por puro masoquismo financeiro, fiz as contas de quanto desembolsaria para comprar os livros que me interessam entre os anunciados ou resenhados na imprensa, só na semana passada: R$ 2.139, ou quase doze salários mínimos. Só na 10ª. Bienal Internacional do Livro, que começa dia 16, no Rio, serão lançados 1.200 títulos novos.
  • Não acreditem mais na história de que a economia brasileira é das dez maiores do mundo. Caiu para o 11° lugar, abaixo da Coréia do Sul. A renda per capita foi de R$ 6.500 no ano passado. O PIB ficou em 595 bilhões de dólares. Os macacos que adotam os Estados Unidos como modelo deveriam evitar comparações: o PIB americano é de 9 trilhões de dólares. Com esse dinheiro, até Fernando Henrique seria um Franklin Roosevelt.
  • Volta a bela moda dos anos 50, vestido com decote e saia plissada, cintura apertada, com cinto largo e salto baixo. É um prazer masculino apreciar uma mulher vestida de mulher, tal qual Marylin Monroe em O pecado mora ao lado. Da cena na grade de ventilação do metrô, só o marido, Joe DiMaggio, não gostou.
  • Fui saber quem é esse Mariz e Barros (Antonio Carlos, 1835-1866) que levou o nome da Travessa da Estrela. Comandante do encouraçado Tamandaré na Guerra do Paraguai, teve uma perna estilhaçada na grande batalha de Paissandu. Recusou anestesia (“prefiro um charuto”), e resistiu à amputação sem dar um gemido. Sentindo que ia morrer, pediu: “Digam a meu pai que sempre honrei o seu nome.” Era filho do almirante Joaquim José Inácio, o Visconde de Inhaúma, com quem se reencontrou numa esquina de Belém. Linhagem aristocrática, regra da elitista Marinha monarquista. Estrela parece que era o nome da vila fluminense onde nasceu o Duque de Caxias.
  • Procuradores da República fizeram a lista tríplice para indicar o substituto de Geraldo Brindeiro, que, aliás, teve 67 votos (20%). O subprocurador Antônio Fernando Barros e Silva de Souza saiu na frente, com 184 votos. A estrela da companhia, Luís Francisco de Souza, apagou-se no 16° lugar, com 7 indicações.
  • A poesia depende da latitude. “Abril é o mais cruel dos meses”, disse T.S.Eliot, soterrado na neve. No azulado outono tropical, Vinicius de Morais cantou as cores e os pássaros mil, na marcha-rancho para a qual Toquinho fez uma música que embala a letra como o vento conduz o ar.


13/05/2001