No rastro do vôo 402


Sérgio Buarque de Gusmão


O professor aposentado Fernando Lobo Vaz de Mello produziu uma peça digna de nota sobre a ainda mal contada queda do Fokker da TAM, em São Paulo, em 31.10.1996, quando morreram 99 pessoas (90 passageiros, seis tripulantes e três em terra). Pai de uma das vítimas, um engenheiro de 27 anos, o professor Mello fez sua investigação particular, com base nos laudos oficiais (aliás, sonegados pelo governo) e concluiu que a tripulação da TAM cometeu sucessivos erros durante a decolagem - apesar de alertada pelo alarma de que havia problemas no avião. O professor sustenta que se os pilotos tivessem escutado o alarma e agido segundo o manual, o avião teria subido.

O artigo do professor Mello foi publicado no Jornal do Brasil, com o título "O relé e o vôo 402", em 12.07.2000. É uma peça equilibrada, informativa, recheada de argumentos ponderáveis. Em três parágrafos conta com clareza o que as autoridades, a TAM e a imprensa não conseguiram ou não quiseram divulgar:


"Após uma pesquisa detalhada desse documento[o relatório oficial do acidente], obteve-se um conjunto de dados que mostra o que realmente aconteceu no vôo 402 e que ultrapassa a meia verdade de um simples relé defeituoso. Durante a operação de taxiamento do vôo 402, a aeronave emitiu dois alarmes sonoros indicativos de problemas, ignorados pela tripulação, o mesmo acontecendo quando pela terceira vez soou um alarme na cabine, durante o início da corrida de decolagem. Caso a tripulação tivesse considerado quaisquer desses alarmes, teria condição de retornar e estacionar a aeronave com segurança. Imediatamente após a decolagem, o relé defeituoso causou uma abertura do reverso do motor direito. Essa anomalia e os procedimentos que a aeronave executa automaticamente para contorná-la, permitindo que o vôo prossiga em segurança, constam no seu manual de operação. 
Quando o reverso é inadvertidamente aberto em vôo, a potência do respectivo motor é automaticamente cortada, ficando disponível para a sua operação outro motor, que é suficiente para um vôo seguro, mesmo durante a decolagem. 
Contrariando a recomendação de que as ações corretivas de vôo só devem ser tomadas acima de 1000 pés de altura, a tripulação tentou pretensamente solucionar a anomalia causada pela abertura do reverso do motor direito, que não foi por ela reconhecida, abaixo de 1000 pés de altura. A altura máxima atingida durante o vôo 402 foi cerca de 200 pés. A tripulação, para eliminar a ação do travamento automático da alavanca de aceleração do motor defeituoso, forçou essa alavanca três vezes, terminando por romper seu acionamento. Paralelamente à ruptura do cabo, um dos tripulantes diminuiu de maneira inconseqüente a potência do motor esquerdo, o único então em operação normal. O desconhecido da tribulação sobre o que ocorria na perda de controle da aeronave."

12/07/2000