Fortuna e miséria dos blogues


Jornais pessoais na internet patinam 
em deformidades e estão longe de substituir 
a
“mídia golpista” que tanto criticam



Sérgio Buarque de Gusmão 
 


Numa entrevista para a pesquisadora Maria do Socorro Furtado Veloso, que preparava uma tese de mestrado sobre o Jornal Pessoal de Lúcio Flávio Pinto, estigmatizei como estultícia a crítica frívola aos jornais pessoais. Lembrei que este tipo de publicação de um autor solitário está na gênese, fortaleceu, dinamizou e engrandeceu o jornalismo. Basta citar os americanos Tom Payne, paladino da causa da independência com The Common Sense, e, modernamente, Isidore Feinstein Stone, e o seu I. F. Stone’s Week. No Brasil, fizeram jornais pessoais dezenas de ativistas, entre eles Hipólito da Costa e seu Correio Braziliense, Antônio Borges da Fonseca, redator de uma folha de nome saboroso, O Repúblico, José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu, que escrevia sozinho o Conciliador do Reino Unido, e Cipriano Barata, editor da Sentinela da Liberdade onde ele estivesse preso. Eram folhas de combate político. Um recorte razoável deste período ígneo da imprensa brasileira foi registrado no livro Insultos Impressos, de Isabel Lustosa. A comparação era inevitável: o velho jornal pessoal de papel está sendo retomado e talvez seja oxigenado pelos blogues virtuais na internet. 

Seria trabalho de Sísifo sequer destacar iniciativas que se filiam à linha dos jornais pessoais de informação e opinião. Como a maioria sai de gente que vai ao mercado de idéias munida apenas de palpites e xingamentos, terminam cintilando os produzidos por jornalistas profissionais que apuram e divulgam informações, a exemplo, para ficar na política, de Alon Feuerwerker, Fernando Rodrigues e Ricardo Noblat, este com a raridade de até ter repórter e fazer coberturas instantâneas. Mais diversificado, cintila no provedor IG o Blog do Nassif, do também jornalista Luís Nassif, um exemplo de seriedade a ser seguido. Nassif inovou ao fazer de seu blogue um condomínio de colaboradores, que postam comentários e anexam estudos acerca de temas relevantes do Brasil. É uma luminosa exceção. 

Tal qualquer outro veículo que propicie a divulgação de idéias e do conhecimento (e sobretudo da luta política), do livro à imprensa, do rádio à televisão, também a internet abriga e conduz um joio editorial que, como aos demais, não a compromete, mas definitivamente deve ser separado do trigo. Nem tudo que se autointitula blogue é jornalismo. Ao contrário, a esmagadora maioria dos que enveredam pelo difícil campo da notícia são territórios livres de algo a que se pode chamar jornalisticídio. Reproduzem a leviandade que se vê e ouve em borracharias, barbearias ou estádios de futebol, costurada com adjetivos infamantes para embalar as opiniões mais estapafúrdias e as informações mais inverossímeis, com a particularidade de que, num espaço público, a pessoa do lado inibir e servir de elemento de ponderação e até freio moral, enquanto na internet os blogueiros solitários, muitas vezes anônimos, não têm ninguém para mediar suas diatribes. E contam com a solidez da palavra escrita para construir castelos de vento. 

Com a perspicácia habitual, o presidente Lula, que realiza um fecundo governo democrático e popular, distinguiu-se da turbamalta e providenciou o seu próprio Blog do Planalto. Parece querer distância dos “aloprados”. A ministra Dilma Roussef, em sua marcha que espero vitoriosa para a Presidência da República, merece apoio mais qualificado que o desses blogues de linguagem excrementícia. Não é própria a quem deseje aprofundar o processo civilizatório do Brasil. É mais inerente às viúvas de Carlos Lacerda, do almirante Pena Boto e da turma do porão que armou seu pau de arara no Ternuma. Não há diferença nos métodos heterodoxos, no linguajar corrosivo, na intolerância jacobina entre muitos blogues do “campo progressista” e seus aparentes antípodas da “imprensa golpista” e assemelhados. Mas diz um axioma da política que se pode escolher o inimigo mas não se pode escolher o aliado. 

Como soldados de uma guerra santa, que se permitem emular as torpezas do inimigo que dizem combater, depredam suas vítimas em uníssono – o que um publica o outro reproduz. E assim, ora à margem das doutrinas jurídicas, crucificam o presidente do Supremo Tribunal, Gilmar Mendes, ora ignorando a mais comezinha hierarquia, atacam o jornalista Ali Kamel, diretor de Jornalismo da TV Globo, e poupam os Marinhos. Seus heróis são o juiz messiânico, o delegado justiceiro e eles próprios entre si, cada um incensando o outro em uma patética tentativa de substituir o elefante da “velha mídia” por uma rede de “grilos falantes”. A chamada grande imprensa de fato vive um de seus piores momentos, enfeixada em partido único (retalhado em facções, como todo partido único) que entroniza a luta política acima de seu dever missionário de informar com equidade e interpretar com acurácia. Mente, frauda, omite e manipula fatos de acordo com seus interesses econômicos e suas afinidades ideológicas. A redemocratização de 1985 não trouxe, como a da Espanha com El País, de 1976, um jornal desvinculado do ancien régime a que, os daqui e os de lá, serviram com fervor. Tudo que está dito aqui acerca das deformidades e falcatruas desta imprensa tem registro na página do Instituto Gutenberg. 

Por mais barulho que façam, os blogues ainda não se apresentam como uma alternativa a esta mídia de notícias que tanto criticam – e, paradoxalmente, copiam copiosamente: transcrevem a mancheias reportagens e notas que lhes convêm. O que não lhes agrada é chamado de “reporcagem”, “pornojalismo” e outros nomes. Um problema a mais em muitos desses blogues é a síndrome de celebridade – os autores relatam gostos pessoais, impressões empíricas, peraltices de filhos e netos. Nada é tão grave, no entanto, quanto o anonimato – último refúgio dos covardes. Insultam, difamam, caluniam como guerreiros encapuzados que têm medo de mostrar o rosto. Não têm secção de cartas e respondem com patadas às críticas mais leves. A eles não soa bem a advertência do poeta inglês John Milton (1608-1674), autor da Aeropagítica, um texto eloqüente de defesa da liberdade de expressão: “Deixemos que a verdade e a falsidade se batam. Quem jamais viu a verdade levar a pior num combate franco e livre?” 

O crime mais nefando no código penal desses blogues é a crítica ao governo. Têm a pele fina dos ungidos na guerra de combate aos infiéis. Sem perspectiva histórica, ignoram o que foi a oposição deletéria a estadistas que defenderam os interesses do Brasil, a exemplo do primeiro imperador, com José Bonifácio de Andrada e Silva bombardeado à frente do ministério; o consolidador da República Floriano Peixoto, atacado a bala pelas viúvas da Monarquia; ou o modernizador Getúlio Vargas, contra quem foi armada uma gigantesca fábrica de notícias falsas. Mesmo a crítica civilizada parece lhes inspirar a volta do “delito de opinião”, que não vige na democracia. Tome-se o exemplo de um certo Cloaca News – um nome ambivalente. Na edição exposta em 27/01/10, o senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, é sebastianizado com umas setenta setas envenenadas na forma de adjetivos – de jagunço a zote – sem que se dê no texto a razão do tsunami verbal.

O ex-senador e ex-ministro do Supremo Paulo Brossard de Sousa Pinto é acoimado de múmia, macróbio e bêbado (Larry Rohter fez escola), por criticar o Programa Nacional de Direitos Humanos em “toletes” publicados no jornal Zero Hora. Prócer da oposição parlamentar ao regime militar na década de 1970, Brossard (MDB-RS) enobreceu a biografia com a bravura de denunciar torturas da tribuna do Senado quando ainda se ouviam gritos nos DOIs-CODIs. Ele sabe o que é liberdade de imprensa. Uma entrevista sua ao semanário Movimento foi totalmente vetada pela censura. O altivo Brossard fez mais pelas liberdades democráticas de hoje, as mais amplas de nossa história, do que todos esses blogueiros juntos. 

Também nutrindo-se da “imprensa golpista”, Cloaca News ressuscitou uma reportagem de 1968 da extinta revista O Cruzeiro, visita ao arquivo saudada noutros blogues como “furo de reportagem”. Trata-se da célebre matéria de Pedro Medeiros, intitulada CCC ou o comando do terror, organização de direita que, na década de 1960, atacou os atores da peça Roda-Viva em São Paulo. A reportagem foi postada no blogue para fustigar o âncora de TV Boris Casoy que acabara de fazer um comentário indecoroso sobre lixeiros. Casoy foi acusado de pertencer ao grupo. Entre os listados como integrantes do CCC também estava José Roberto Batochio, cuja suposta ligação com a organização direitista resumiu-se a uma frase: “Esteve também no ataque à USP.” Trata-se da famosa Batalha da Maria Antônia, rua do centro paulistano onde ficava a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, reduto de estudantes de esquerda, e ainda fica a Universidade Mackenzie, frequentada por muitos estudantes de direita. Os dois lados viviam às turras. Em 2 de outubro de 1968, quando alunos da Filosofia cobravam pedágio dos carros que passavam na rua, para custear o 30° Congresso da União Nacional dos Estudantes, estourou a guerra. Coquetéis molotov voavam de lado a lado. O prédio da Filosofia terminou incendiado. Um secundarista foi morto a tiros num crime até hoje sem autoria comprovada. Outro secundarista destacou-se como líder: José Dirceu. 

Ocorre que Batochio não estava lá: já não era estudante do Mackenzie. Formara-se em 1967 e em 1968 portava a carteira da OAB com que se tornou um dos maiores advogados do Brasil. Apesar de ter repelido prontamente a reportagem de O Cruzeiro, nunca conseguiu desfazer completamente a acusação – remanufaturada de tempos em tempos. Não a levaram a sério os conselheiros da OAB que o elegeram presidente do Conselho Federal da Ordem em 1993. Como presidente do PDT, Leonel Brizola também não deu ouvidos à história quando convidou Batochio para integrar o partido em São Paulo, pelo qual elegeu-se deputado federal em 1998 e foi distinguido pelo DIAP por sua atuação parlamentar.

Convivo com Batochio há uns 15 anos e testemunho seu apego à causa da liberdade. Zela pelo direito de defesa de quem quer que seja como se fora oxigênio no tribunal. Orgulha-se de nunca ter acusado ninguém como auxiliar da promotoria. Irrita-se com delegados, promotores e juízes messiânicos que prejulgam réus de acordo com suas convicções e não segundo os autos. Lamenta o festival de grampos usados pela polícia e o Ministério Público em substituição à investigação clássica de crimes. É um paladino da liberdade de imprensa, mas, também, da acurácia no jornalismo. 

De quebra, Cloaca News põe um sinal infamante em Batochio por ter processado o jornalista Luís Nassif quando era presidente da OAB – como se processar jornalista não fosse comum aos próprios jornalistas, que vivem se processando. E, pior, configurasse um crime hediondo de atentado, como gostam de alegar os donos de jornais e suas associações corporativas, à liberdade de expressão que muitos deles não honram. 

Curioso nesta ressuscitação de O Cruzeiro é que, se há na história do Brasil um caso de publicação bem-sucedida a que se aplicam os labéus que hoje os blogues dirigem a Veja é justamente ela. Perto de O Cruzeiro, Veja é uma revista de freiras. Era a jóia do império editorial do maior escroque da imprensa brasileira, Assis Chateaubriand, e teve como repórter principal, de 1943 a 1975, Davi Nasser, racista, achacador, golpista de 1964 e “presidente de honra” do Esquadrão da Morte. Em 26 de dezembro de 1963, o deputado Leonel Brizola, injuriado num artigo, deu-lhe uns tapas na cara em pleno aeroporto do Galeão. Na folha corrida de O Cruzeiro inscrevem-se crimes de leso-jornalismo como a invenção do repórter João Martins de que a baiana Marta Rocha perdeu o título de Misse Universo de 1954 porque tinha duas polegadas a mais nos quadris, sem falar no disco-voador que os repórteres Ed Keffel e de novo João Martins fotografaram na Barra da Tijuca um ano depois. 

Em meio século de banca, a revista não foi só fraude, teve grandes colaboradores (a começar de Péricles e seu Amigo da Onça) e fascinou o Brasil arcaico e desconectado com as fotos deslumbrantes de Jean Manzon e reportagens de valor como a de Mário de Moraes e Ubiratan de Lemos documentando a migração de nordestinos para o Rio, em 1955, vencedora do primeiro Prêmio Esso. Mas O Cruzeiro foi sobretudo fonte e ninho de um jornalismo fraudulento, irrigado pelas cascatas da invencionice, do tráfico de influência, da chantagem e extorsão, documentados no livro Cobras Criadas, de Luís Maklouf. Na fase de agonia, já na década de 1970, pertenceu ao jornalista Alexandre Baumgarten, que definitivamente a transformou num balcão de negócios escusos. Antigo informante do Exército, Baumgarten obteve do Serviço Nacional de Informações uma carta de recomendação a empresários para que publicassem anúncios na revista. Foi assassinado misteriosamente, deixando um dossiê em que acusava o SNI de planejar a sua morte. 

Os blogues jornalísticos, têm de fato, um potencial animador. Podem, como já tentam fazer, fiscalizar a grande imprensa, apontar suas falhas e trazer à luz informações corretas – ou, no mínimo, o “outro lado” – quando flagram erros e fraudes. Não podem esquecer, no entanto, que estão sujeitos às regras clássicas do jornalismo, devendo livrar-se do abominável anonimato, da tendência à esculhambação sumária, da interpretação não autorizada pelos fatos, da subordinação ou hierarquização dos fatos à sua linha política. E perseguir obsessivamente a verdade – a verdade factual. Sem isso correm o risco de emular a grande imprensa que criticam com palavras de fogo e se queimarem em ninharias que podem ser tudo, menos jornalismo.


28/01/2010