As viúvas da antigua orthographia




Sérgio Buarque de Gusmão 

 

O Acordo Ortográfico que acaba de entrar em vigor nos países da língua portuguesa tem entre seus múltiplos efeitos a renovação da ranzinzice dos puristas. Talvez não haja ofensa maior, nesse campo, do que chamá-los de guardiões da mumificação – da ortografia, no caso –, avessos às mudanças que a língua portuguesa tem sofrido desde que se separou do galego e constituiu-se como idioma autônomo. Tem sido assim a partir ao menos de 1880, quando o filólogo português Gonçalves Viana pôs-se a simplificar a escrita, e na seqüência de um punhado de acordos que oficializaram a modernização da “antigua orthographia”.   

Todos os letrados temos nossas idiossincrasias (dos ágrafos nem se fale) e muitos teimam em não seguir as regras estabelecidas em lei, incidindo no pior erro que podem cometer: o de cultivarem uma ortografia pessoal, sinônimo da balbúrdia que enfraquece o idioma e prejudica a comunicação. Até gramáticos e dicionaristas casmurram nas escolhas peculiares. Foi o caso de Napoleão Mendes de Almeida, em sua Gramática

Metódica, que seguiu preferindo estranjeiro por  fidelidade etimológica. O Aurélio ignorou a reforma dos acentos diferenciais de 1971 e abonou forma e fôrma, esta extinta no Vocabulário Ortográfico, preparado, com força de lei, pela Academia Brasileira de Letras. O cineasta Glauber Rocha, que tinha o dom de inovar na imagem, escrevia artigos de jornal com uma esthetica vocabular do tempo em que cinema era animatógrapho. Mais uma vez, os jornais desses dias trazem de volta as lamúrias das viúvas da ortografia instituída no acordo de 1943, ortodoxas como suas antecessoras na defesa do velho contra o novo. 

Se é um truísmo dizer que “o povo faz a língua”, e que sua força evolutiva está na oralidade, também constitui obviedade reconhecer que toda língua de cultura necessita de uma norma culta que assegure sua unidade. A gramática, com regras por vezes tortuosas (repito: quantos de nós não derrapamos nas curvas do pronome reto...), é um imperativo da civilidade cultural, ou seja, o preço que pagamos para viver em harmonia social.

É lícito reclamar de aspectos do Acordo, ou pugnar por uma revisão mais ampla e profunda das normas, mas convém lembrar que não é fácil tecer um pacto ortográfico nem na mesa do botequim, quanto mais entre sete países, como diz a piada, separados pela mesma língua. Basta ver a resistência que setores de Portugal oferecem à implantação das novas regras, embora elas tenham sido endossadas pelo filólogo João Malaca Costeleiro, coordenador do Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa. Idêntico apoio deu o maior gramático brasileiro vivo, Evanildo Bechara.

Sabem eles que a língua é um fato social, sujeito a mudanças como tudo que existe. Não se pode é estender a ela uma espécie de neoliberalismo linguístico que a sujeite exclusivamente aos usuários, vale dizer, ao mercado. O caráter normativo do Acordo Ortográfico é tão mais importante quando se aquilata que é um tratado político entre Estados, com o objetivo de universalizar a língua portuguesa, dando-lhe unidade internacional.               


04/01/09