Nem branco nem preto



IBGE alia-se a movimentos raciais
e declara que pardo é negro



Sérgio Buarque de Gusmão


Você é branco ou negro? Segundo um estudo feito no IBGE pelos demógrafos Juarez de Castro Oliveira e Nilza de Oliveira Martins Pereira, todos os brasileiros pertencemos a um desses dois grandes grupos de cores. O estudo bipartiu caprichosamente a pele da população e concluiu que os brasileiros dividem-se em 47,8% de negros e 51,8% de brancos (os 0,4% restantes são amarelos e índios). Os dados foram extraídos dos últimos Censos - 1980 e 1991 - e usados pelos demógrafos como demonstração de que aumentou o número de pessoas que se dizem negras no Brasil. Trata-se de um engodo estatístico-racial. Sustentando-se num truque, ou mesmo manipulação, o estudo incluiu os pardos no grupo dos negros. É caso de fusão invulgar em que o menor agiganta-se sobre o maior. Segundo o Censo de 1991, apenas 5,01% dos brasileiros se declararam pretos, mas 42,6% foram classificados como pardos. O estudo dos demógrafos do IBGE leva o título População jovem no Brasil: a dimensão demográfica e consta da brochura População jovem no Brasil, que inclui mais uma monografia, sobre o perfil da mulher de 15 a 24 anos. Tem 56 páginas em formato de revista e preço de livro encadernado: R$ 15. Tudo parece em ordem, exceto o capítulo Composição por cor, onde a manipulação é candidamente apresentada. "As categorias relativas à cor das pessoas contempladas nesta análise são branca, negra (formada pelos pretos e pardos) e outras) que inclui os indígenas e os orientais", diz o estudo. Aí está a chave da distorção: o número de brancos diminuiu e o de negros cresceu mediante a inclusão dos pardos. Com base nessa quimera, o estudo chega à conclusão de que "De 1980 para 1991, a população branca reduz sua representação na população total do país, ao passar de 54% para 51,8%. Em contrapartida, ganha participação a população negra, cujos percentuais são de 45% e 47,8%, respectivamente, em 1980 e 1991".


 
Negros de menos, brancos demais

O quesito "cor" sempre foi problemático nos censos do IBGE, porque, visivelmente, os relatórios não mostravam a realidade. Durante muitos anos, era o recenseador quem definia a cor do recenseado, mas, a partir de 1980, a resposta passou a ser de responsabilidade dos entrevistados. Aparentemente, a nova fórmula não eliminou as distorções. Segundo o Censo de 1991, a população brasileira é formada de 51,75% de brancos, 42,6% de pardos, 5,01% de pretos, 0,43% de amarelos e 0,20% de indígenas. O IBGE publica seu critério: "Cor ou Raça" é a "característica declarada pelas pessoas de acordo com as seguintes opções: branca, preta, amarela, parda ou indígena." É visível que o País não tem apenas 5% de pretos e tampouco o excessivo número de 52% de brancos. Mas daí a considerar pardo como negro são outros quinhentos. São mestiços, como o próprio IBGE classifica em seus questionários. A faixa da população que não se declara branca, preta, amarela ou índia é especificada como "mulata", "mestiça", "cabocla", "mameluca", "cafuza" e "etc." Afora o IBGE dever uma explicação sobre o que é a faixa "mestiça", numa classificação que exibe os produtos concretos da miscigenação, como as populações mulata e cabocla, fica claro que a totalidade dos pardos não pode ser enfiada no grupo dos negros - com a exceção do subgrupo dos mulatos. Os mulatos são descendentes diretos de negros e brancos. A maioria dos pardos não partilha essa ancestralidade, a começar dos caboclos que descendem de índios e brancos, como a maioria da população da Amazônia, onde o tráfico negreiro só entrou no final do século XVIII. Quando os negros começaram a chegar ao Brasil, em meados do século XVI (o padre Manuel da Nóbrega foi um dos primeiros importadores de escravos, em 1552), os mamelucos eram a maioria da população depois dos índios - índios que o escrivão Pero Vaz de Caminha chamara de pardos. O colonizador veio sem mulher para o Brasil. Solitário, e atraído pela libido das cunhãs, procriava como coelho. "A luxúria dos indivíduos, soltos sem família, no meio da indiada nua, vinha servir a poderosas razões de Estado no sentido de rápido povoamento mestiço da nova terra", escreveu Gilberto Freyre em Casa-grande & Senzala. O pitoresco Caramuru (1475-1557) e a índia tupinambá Paraguaçu fundaram duradouras linhagens caboclas, como os Moniz e os Garcia D´Avila. Os caboclos sofreram forte discriminação racial e social - tornaram-se sinônimos de indolentes e parvos. Gente de fina inteligência e grosso racismo, como Nina Rodrigues, Euclides da Cunha e Oliveira Vianna, duvidaou que os mestiços pudessem construir um país. Segundo Câmara Cascudo, no monumental Dicionário do Folclore Brasileiro, "foi vocábulo injurioso e El-Rei D. José de Portugal, pelo alvará de 4 de abril de 1755, mandava expulsar das vilas os que chamassem aos filhos indígenas de caboclos". Nunca foram brancos, nunca foram negros. Sempre foram pardos. Na época em que as carteiras de identidade ainda registravam a cor dos brasileiros, o jovem que tirava o documento na Secretaria de Segurança Pública do Pará nem era questionado pela datilógrafa. Ela dava uma espiada por cima dos óculos e, divisando a tez acinzentada, os olhos redondos e os lisos cabelos negros, o rosto amassado como dos orientais, escrevia no quesito "Cútis": "Parda".


"Mestiço é que é bom"

Feita a manipulação, os dois pesquisadores do IBGE buscaram uma explicação política para o suposto crescimento dos número de negros entre os dois últimos censos. "É importante mencionar que o Censo Demográfico 1991 foi acompanhado por uma forte campanha por parte dos movimentos de conscientização da raça negra junto à sociedade. Estes valores podem estar refletindo que a campanha empreendida, em alguma medida, teve êxito", diz o estudo. É outra falsidade. O número de pessoas que se declararam pretas caiu de 5,54% em 80 para 5,01% em 91. A associação entre a demografia e o movimento negro reforça a militância que tenta empreender lutas sociais a partir da cor da pele de agentes politicamente corretos. Classificar todo pardo como negro faz parte do equívoco multiculturalista do movimento. É um artifício, num país racista, para valorizar a causa negra. Um mau efeito desse equívoco consiste na desvalorização da miscigenação predominante no Brasil. A mestiçagem é a arma mais eficaz contra o racismo, e o caminho mais curto para a democracia racial a ser perseguida ao longo dos séculos por qualquer sociedade democrática. Em contrapartida, o movimento negro e os demógrafos do IBGE costuram um retrocesso bipolar de "raças", como fazem os americanos. A luta prioritária dos negros é afunilada à cor da pele, faz-se contra os brancos, não contra o sistema econômico e social injusto. Uma das ideólogas do movimento negro, Sueli Carneiro, sustenta que as lutas sociais mais profundas do povo brasileiro serão travadas entre "um mundo branco e um mundo negro". O professor Mário Maestri apontou a pequenez desse radicalismo racial: "Trata-se essencialmente de tornar mais negro o capitalismo brasileiro." "Mestiço é que é bom", proclamava o antropólogo Darcy Ribeiro, escorando-se em sua autoridade intelectual e moral para caminhar no fio da navalha com uma exaltação que, mal interpretada, corre o risco de ser vista como racista. Assumindo risco idêntico, o autor deste artigo diz que não é branco nem negro, é pardo, e gosta de ser mestiço no país da miscigenação. Sabidamente, teve uma bisavó índia e uma avó mulata. Provém da mistura genética que desde 1500 é feita por brancos e indígenas e, depois de inaugurado o tráfico de escravos, também por negros. Como quase todo brasileiro, carrega genes dos índios e dos negros, de acordo com pesquisa realizada pelo geneticista Sérgio Danilo Pena na Universidade Federal de Minas Gerais. O estudo demonstrou que até entre os brancos há mais genes de índios (32%) do que de negros (28%). Em entrevista ao repórter Marcelo Leite, na Folha de S.Paulo, em 03/07/2000, o Dr. Pena apresentou uma lição certeira aos que querem engrossar suas fileiras (e atrair verbas para suas ONGs...) manipulando a cor da pele da população. Não falava diretamente disso, mas de "uma coisa que as pessoas têm certa dificuldade de entender: a inexistência de raças não é que todo mundo é igual. É que todo mundo é igualmente diferente."