Música para os miseráveis


Sérgio Buarque de Gusmão


Numa safra rica em musicais (estréiam Os Lusíadas, dramatização do poema de Camões em produção de Ruth Escobar, e Cambaio, de Edu Lobo e Chico Buarque, com montagem de Adriana e João Falcão, de A máquina), a incógnita de São Paulo é Les misérables, assim mesmo, em francês, tal qual em Belém os jornais escrevem boulevard. É uma produção de R$ 3,5 milhões, montada no redivivo Teatro Paramount, reformado por R$ 7 milhões, com 36 atores e uma orquestra de 19 músicos. A produção original está em cartaz em Londres há 16 anos. 

É duro vislumbrar Os miseráveis, o dramático romance em que Vitor Hugo expôs seus ideais libertários, encenado num musical de luxo. A obra, um totem da fase republicana do autor, publicada em 1862, é um dos maiores painéis da injustiça social, debulhando a história de um homem condenado a vinte anos de trabalhos forçados por roubar um pedaço de pão para matar a fome dos sobrinhos órfãos. Vale para Os miseráveis o que o poeta anglo-americano T.S. Eliot, Prêmio Nobel de Literatura de 1948, disse de outro livro famoso: ninguém fica alheio à sorte do mundo depois de ler o Capital. 

Pelo andar da carruagem, vão nos servir o próprio Capital em partituras, talvez uma ópera burlesca em que o diretor vá se dar o direito de introduzir personagens contemporâneos, quem sabe o Sr. Neoliberalismo, amante de Madame Mais Valia, cuja trilha romântica poderia ser “Eu, você, nós dois, já temos um passado, meu amor...”. Temo por Hamlet, num musical, cantando “Ser ou não ser, eis a questão” em ritmo de “funk”. A caveira usada pelo príncipe dinamarquês na peça de Shakespeare poderá ser a do tigrão da gangue rival à do ator. 

O musical não é um gênero menor, nem corrompe, pela música, uma peça dramática ancorada no silêncio. O trabalho de Chico Buarque com o poema Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, comprova a ressalva. Entretanto, uma grande obra de arte encontra na expressão original seu veículo definitivo. É impossível transpor para o cinema ou o teatro, ou para o calidoscópio da multimídia, catedrais esculpidas na palavra, como Madame Bovary, Guerra e paz, No caminho de Swann (segundo livro de Em busca do tempo perdido), todos já levados às telas. Os miseráveis mesmo já teve três versões no cinema, a última dirigida pelo dinamarquês Bille August (Pelle), com Liam Neeson e Uma Thurman. Para quem sublima o original, a adaptação tende a ser um exercício reles de metalinguagem. 

Decidi não ver filmes ou peças baseados em livros que admiro. Já fiz o contrário: desisti de ler Umberto Eco no chatíssimo O nome da Rosa e tomei um atalho para admirar Sean Connery soberbo no papel do sábio franciscano. Já me apaixonei pelo livro mesmo depois de ver o filme, caso de A sangue frio, de Truman Capote, obra-prima tão luminosa que incandeou as cenas do cinema – com exceção, é claro, de Robert Blake, que interpreta com brilho o assassino Perry Smith. Mas o filme de Richard Brooks é bom, até Capote gostou. Arrastado por um muxoxo conjugal do tipo “a-gente-só-vê-os-filmes-que-você-escolhe”, fui à versão cinematográfica de S.Bernardo, uma bela adaptação de Leon Hirszman, mas preferia ter ficado em casa lendo a obra de Graciliano Ramos. Fogueira das vaidades, o filme, de Brian de Palma, incinerou o romance de Tom Wolfe. 

Cinema é mesmo a sétima arte, preferível a teatro, se é que se pode fazer tal escolha. Mas a literatura, criação individual para leitura individual, gera uma cumplicidade criadora, íntima, sutil, que as artes visuais escancaram. Cada leitor de Dom Casmurro cria sua imagem de Capitu, como um desenhista de retrato-falado, montando, a golpes de emoções e prazer estético, a figura que o artista da pena vai lhe dando a retalho, página por página. É estragar tal prazer ver a heroína de Machado de Assis num corpo de atriz. Nem há graça em vê-la desenhada na capa do livro, mania de editoras, como a Ática, que dá feições a uma personagem construída literariamente como um enigma. 


Mr. Smith não deu certo 

A Amazônia entra pela metade na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), do IBGE, que permite a preparação da Síntese dos Indicadores Sociais. Não constam da pesquisa as áreas rurais dos estados, com a exceção do Pará. Daí não merecer crédito a entronização de Roraima na maior taxa de escolarização (98,3%) ou a do Amapá como a melhor relação entre os rendimentos dos mais ricos e o dos mais pobres (11,7, contra a média nacional de 18). 

A Síntese dos Indicadores Sociais 2000, recém-divulgada, é um retrato novo de uma paisagem velha: a miséria do povo brasileiro. Indicadores que se alteram por inércia, como a queda da mortalidade infantil e o aumento da escolaridade, não escondem a grande chaga nacional que é a concentração da renda. Os 10% mais ricos ganham em média 18 vezes mais que os 40% mais pobres (com a exceção duvidosa do Amapá). Note-se que há diferenças entre os dados oficiais. O Ministério do Planejamento (IPEA) concluiu que o problema é maior do que na conta do IBGE: os 10% mais ricos, diz o IPEA, ganham 28 vezes mais que os 40% mais pobres. No Japão, a relação é de 4. Nos EUA, de 5,5. E na Argentina, de 10. Isso explica porque tem tanta criança assaltando, prostituindo-se ou vendendo bombom na porta da Basílica. Quem quiser entender por que o Brasil ficou assim, leia a excelente entrevista de Jorge Caldeia, autor de A nação mercantilista, à revista Dinheiro. 

Os 40% mais pobres analisados pelo IBGE ganham em média 0,98% do salário mínimo, ou R$ 127,27. A partir de 1º de maio, o aumento do mínimo de R$ 136 para R$ 180 vai reduzir o número de pobres em 2%. Pobre, como critério estatístico, é a família com renda per capita menor que R$ 50. Se os pais de dois filhos embolsam R$ 200 por mês, pobres é o que não são. 

Não foi isso que Adam Smith prometeu quando disse que a economia liberal universalizaria a riqueza. Mas esse inglês, grande teórico do capitalismo, não fez sucesso aqui. O Brasil até que não demorou tanto a publicar o clássico Uma investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações, mais conhecido como A riqueza das nações. Lançado em Londres em 1776 (não por coincidência, o ano da grande Revolução Americana) saiu no Rio em 1811. 

Antes disso, o “inconfidente” Cláudio Manuel da Costa citava o livro na pregação silenciosa da Conjuração Mineira. Pagou com a vida, suicidando-se na cadeia. No século XVIII, Smith, golpeando o decadente mercantilismo, era transformador como a Revolução Francesa. A verdade é que o capitalismo de Smith, como as sopas Campbell´s e o sutiã de borracha, não pegou no Brasil. A “mão invisível”, expressão que usou para o mercado, tira dos pobres para dar aos ricos. 


Flor do Lácio 

Belemense – O corretor ortográfico do Word insiste em trocar belemense por belenense. Belenense é um lusismo. Eu sou belemense, direito léxico que me é negado pelo Aurélio, e Cândido de Figueiredo, naturalmente, que só aceitam a grafia lusitana. Socorro-me no Vocabulário Ortográfico, que abona as duas formas, e em Laudelino Freire, que ignora belenense e diz que belemense é “natural de Belém”, e estamos conversados. Eu sou da turma que diz belemense, caboco, gapó e tamatá. 

Francesismos – “Boulevard” não é português, nem “bicyclette” “decollage”, “téléphone”, “publicité” ou “guichet”. Foram aportuguesadas, como manda o figurino. 


Diálogos inconvenientes 

No bar, a amiga de um amigo nota meu sotaque diferente, e pergunta, enjoada: 

– Você é do Norte? 

O tom é o de quem menciona uma coisa desagradável. Norte não é uma região, mas um banco de pau-de-arara. Arrogância não é meu forte, mas não resisto à malineza e parodio a resposta do escritor sergipano Gilberto Amado: 

– Os meus leitores pensam que eu sou da Grécia, mas eu sou mesmo é do Pará. 

Todos riram, menos ela. 


Dos leitores 

Iva Cristina Muniz, de Belém, gostou de saber que o craque Quarentinha, do Paissandu, fez bonito no Botafogo do Rio, uma dupla alegria para ela, que é “bicola de coração e botafoguense por emoção”. 

Alfredo Garcia, de Belém, diz que o erro de escrever Paysandu “acaba sendo perpetuado, aqui como alhures”. 

Bruno Vieira, de Belém, não vê seriedade numa lista que tenha o governador Almir Gabriel entre os indicados para Paraense do Século. 


Miscelânea 

  • Os índios já não estão em extinção. São 350 mil (falava-se em 110 mil nos anos 70), e em quatro anos, de 1996 a 2000, cresceram à taxa de 3,5%, enquanto o crescimento médio da população foi de 1,6%. Algumas tribos de fato estão desaparecendo, como os aricapus, em Rondônia, dos quais restam dois indivíduos. Os uaimiris-atroaris crescem e multiplicam-se. São dados do antropólogo Beto Ricardo no livro Povos indígenas no Brasil – 1996/2000
  • Que a sobrevivência altiva dos índios seja uma homenagem àquele que Darci Ribeiro considerava o maior dos brasileiros, o Marechal Rondon, grande omissão do Prêmio Nobel da Paz. “Morrer se preciso for. Matar, nunca” era o seu lema. 
  • Circula na Internet: leia em voz alta o endereço eletrônico da Corregedoria da Corrupção: governo@brasil.gov.br 
  • Morreu Antonio Acioly Neto, diretor da revista O Cruzeiro quando Marta Rocha perdeu o Misse Universo de 1954. Acioly revelou no livro O Império de papel (Sulina, 1999) que a história das “duas polegadas a mais” foi inventada pelo repórter João Martins.  
  • Paulo Martins, do restaurante Lá em casa, rouba a cena no programa de culinária Diário do Olivier (Canal GNT, na Net), preparando um tamatá no tucupi. Podia servir também no leite de coco, dádiva que veio da Índia, espalhou-se nas senzalas e estendeu uma ponte saborosa entre as cozinhas do Nordeste e da Amazônia. Se uma é comida do Pai, a outra é do Espírito Santo. 
  • Onze anos sem Rui Barata, no dia 23. É nome de uma invasão na Av. Augusto Montenegro. Homenagem do povo a um poeta que defendeu posseiros. Lembro-me dele, no Café Central, fazendo o apostolado nativista que inundou sua poesia, também trançada no lirismo universal que encantou Mario Faustino: “Tessitura do arcano, equipagem noturna / alva rede balança”. 
  • Fafá, boa cantora, exagera no andamento de Foi assim, de Rui e Paulo André Barata. É canção de perda, de ausência. Fafá festeja a dor. E ainda erra o belo verso “Quando o mundo era quase meu, / tu te fostes de mim”. 
  • Consulto um mapa para verificar se a Curuzu é travessa ou rua (escrevi rua, induzido pelos jornais, mas é travessa), e encontro uma tal de Mariz e Barros. Cadê a Tv. da Estrela que estava aqui? 
  • Eu sei que o inglês Hubert Cecil Booth patenteou o aspirador de pó, que o francês Georges Claude fez a luz néon, que o húngaro Ladislao José Biró criou a caneta esferográfica, mas não tenho idéia de quem inventou a máquina de descaroçar açaí. O colonialismo é uma serpente de sete cabeças. Este benfeitor entra na minha lista dos dez mais do Pará. 


08/04/2001 

Publicado originalmente na revista virtual belemdopara.com.br