Graciliano Ramos no PFL



Manual eleitoral do partido cita o Velho Graça
como exemplo de prefeito


Sérgio Buarque de Gusmão

O Partido da Frente Liberal distribuiu, no sábado, 8, o seu manual do candidato para as eleições municipais com um estranho no ninho: uma longa citação de Graciliano Ramos (1892-1953). O manual do PFL, partido do vice-presidente Marco Maciel, dos senadores Jorge Bornhausen e Antonio Carlos Magalhães e do ex-deputado Hildebrando Paschoal, reproduz trechos do famoso relatório que Graciliano, como prefeito de Palmeira dos Índios (AL) remeteu ao governador de Alagoas. em 10 de janeiro de 1929.

O relatório foi a primeiro sucesso literário do futuro autor de S.Bernardo. Constitui uma obra-prima da literatura de amanuense. Ao falar da rede elétrica, por exemplo, disse: "Se a iluminação da cidade custou muito, a culpa não é minha: é de quem fez o contrato com a empresa fornecedora de luz. A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá." E, adiante: "Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis." 

É difícil afirmar, mas fácil supor, que o Velho Graça não ficaria à vontade na cartilha de um partido invertebrado que se agarra ao poder como o limo à pedra (ele cumpriu dois anos de mandato e renunciou em 1930). Comunista, e comunista mal-humorado, daqueles que perguntava por que? se alguém dava-lhe bom dia, pertencia à outra linhagem de político. Queria mudar o país e não sugá-lo. A julgar pelo que Graciliano escreveu, o deputado Inocêncio Oliveira jamais seria seu companheiro de manual e sim personagem literário - um daqueles coronéis que ainda hoje mantém o sertão do Nordeste como um cenário de Vidas Secas. Definitivamente, não combina com o partido de ACM o escritor que foi preso em 1936, embarcado num navio e depois numa colônia penal, período que lhe rendeu o livro Memórias do cárcere. 

Quem ilustraria bem o manual do PFL seria o descobridor de Graciliano, o poeta Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Quando leu o relatório do então prefeito de Palmeiras dos Índios, Schmidt supôs que ele teria algum romance na gaveta. E tinha. Era Caetés, publicado (por Schmidt) em 1933. Schmidt engordou com a fama de não pagar direitos autorais - avareza que outro escritor publicado originalmente por ele, o sociólogo Gilberto Freire, fez circular pelos salões literários até morrer. Se foi um bom poeta e avaro editor, Schmidt deu-se bem como homem de negócios, entrando no próspero ramo dos supermercados no Rio. 

Graciliano morreu pobre e cioso da sua obra. Zelava tanto pelo que escrevera que recusou uma proposta do cineasta Nelson Pereira dos Santos, seu companheiro no Partido Comunista, para a filmagem de S.Bernardo. Nelson sugeriu que a heroína trágica do livro, Madalena, sobrevivesse no filme enquanto suicidava-se no romance. Ouviu poucas e boas. 


10/07/2000