Entre a aritmética e a polícia


Pesquisas



CPI é o fórum para desvendar os erros e passar a limpo as suspeitas sobre o trabalho dos institutos - e da imprensa - nas eleições


Sérgio Buarque de Gusmão

O funcionário do instituto de pesquisa bate à sua porta e, para seu espanto ante um ser tão afamado quanto invisível, diz: "Vou lhe fazer algumas perguntas e gostaria que respondesse se acha que..."

Os institutos de pesquisa que atuam no Brasil são sérios ou manipulam os dados?

Os principais institutos erraram ou acertaram nas pesquisas sobre as eleições de 1998?

Como a sociedade pode impor transparência (e competência) aos institutos?

O acerto das pesquisas de boca-de-urna demonstram a competência dos institutos?

Os meios de comunicação divulgam corretamente as pesquisas?

É correto um instituto trabalhar, ao mesmo tempo, para candidatos e meios de comunicação?

A divulgação de pesquisas eleitorais deve ser proibida num determinado período anterior às eleições?

A CPI criada no Congresso Nacional tem condições de investigar a fundo e propor formas democráticas de auditagem das pesquisas ?

Não responda ainda.

Este artigo vai ajudá-lo a dar respostas que levam em conta questões fundamentais, como a livre circulação de informações, a liberdade de expressão e de iniciativa econômica, o perigo da acusação sem provas, e, não menos importante, a incompetência do jornalismo brasileiro e a arte de mentir para proteger os amigos.

Questão 1 - O fantasma das fraudes - Os institutos que atuam no Brasil são aparentemente sérios, usam metodologia universal e, se tomarmos um largo período de atividades, têm acertado nas previsões eleitorais. As imputações de fraude e manipulação feitas a eles padecem do velho vício brasileiro de acusar sem provas. Muitos insinuam, mas ninguém demonstra que em vez de erro (involuntário) há fraude (má-fé). É indisfarçável, no entanto, que os institutos escalaram um Everest de erros nas pesquisas para as eleições de 1998. Se a metodologia é correta, se o universo é bem delimitado, se a tabulação é boa, o resultado será fidedigno. Como é difícil errar pesquisa planejada com metodologia científica, nascem suspeitas de que um ou outro instituto frauda resultados. Os institutos - e os meios de comunicação que publicam pesquisas - têm de explicar, portanto, as razões de tantos enganos nas previsões para as eleições de governador no 1.º turno.

Questão 2 - Erros de até 21 pontos - Os erros foram maiores do que a boa-fé pode suportar. Tome-se o desempenho do Datafolha. O instituto associado ao maior jornal do país, a Folha de S.Paulo, tropeçou em todas as pesquisas de intenção de voto para governador de nove estados e do Distrito Federal, realizadas dois dias antes da eleição dia 4 de outubro. O Datafolha errou a votação de pelo menos 13 de 22 candidatos mencionados. Em São Paulo, Bahia e Distrito federal, embaralhou a ordem de colocação dos candidatos - de tal sorte que um segundo colocado (Francisco Rossi, em São Paulo) caiu para o quarto lugar. No Rio, ao contrário do que previu o instituto, Anthony Garotinho não venceu no 1.º turno - obteve 46,86% e não 52% dos votos válidos. O Ibope, decano dos institutos de pesquisa, há cinqüenta anos no ramo, boiou tanto quanto um ginasiano esquadrinhando o teorema de Fermat. No Maranhão, para ficar no caso mais vexatório, o instituto previu que a governadora Roseana Sarney seria reeleita com 70% do total de votos, e ela estacou em 48,8% - uma diferença de 21 pontos percentuais que fariam uma instituição séria corar de vergonha e pedir desculpas ao público.

Questão 3 - O efeito saneador da crítica - A saraivada de críticas aos erros crassos das pesquisas eleitorais obrigou os institutos a, pelo menos, explicar seus métodos e corrigir defeitos. A elite da mídia, de rabo preso com as pesquisas, não agiu com lisura para investigar o festival de enganos, mas foi obrigada a noticiar a indignação de candidatos e eleitores prejudicados. Como resultado da pressão, a Folha passou a publicar detalhes da metodologia do Datafolha e atentou para fatores como os índices de abstenção e de erro no voto. Se na última série de pesquisas do 1.º turno o Datafolha cometeu erros generalizados, no 2.º turno enquadrou todas as previsões dentro da margem de erro. O Ibope insistiu em acobertar suas trapalhadas e, numa manobra estatística, aumentou a margem de erro das pesquisas. Do padrão de 2 pontos, as margens subiram para 3,5 e até elásticos 4,2 pontos percentuais. Com oscilação tão generosa, o Ibope recompôs-se e obteve muitos acertos. Ainda assim, naufragou, pela segunda vez, na previsão para o Distrito Federal. Primeiro disse que Joaquim Roriz ganharia de Cristovam Buarque; depois, inverteu o erro. Ficou claro que as pressões baseadas em denúncias dos erros e as acusações de fraude, seguidas de propostas de investigação e até de censura, forçaram os institutos a aperfeiçoar seu trabalho.

Questão 4 - O tiro no elefante amarrado - Em vez de admitir os erros palmares, os institutos - e os meios de comunicação que contrataram pesquisas - enfrentaram a onda de críticas apresentando seus acertos na boca-de-urna. A Folha de S.Paulo publicou uma manchete tão monocórdia quanto diversionista: "Resultados confirmam boca-de-urna do Datafolha". Em 9/10, a Folha enganou seus leitores ao estampar: "O Datafolha acertou as tendências e os resultados em todas as dez unidades da Federação onde realizou pesquisas para as eleições deste ano." Que tal lembrar o Distrito Federal, onde o instituto previu a vitória de Joaquim Roriz no 1.º turno e quem ganhou foi Cristóvam Buarque? O Ibope manipulou informações em sua página na Internet para garantir que acertou tudo. Ocorre que as pesquisas mais importantes são as feitas antes do pleito - sobretudo a última. Publicadas na véspera ou no dia da eleição, são o testemunho da seriedade e competência do instituto. Influem no voto do eleitor, no ânimo da militância e no curso do candidato - porque o eleitor ainda vai votar. A boca-de-urna, em contrapartida, é feita com o voto votado. Acertar essa pesquisa, feita durante o pleito, é tão fácil quanto alvejar um elefante amarrado. Ainda assim, o Datafolha e o Ibope conseguiram a proeza negativa de derrapar na boca-de-urna da eleição presidencial. O presidente Fernando Henrique Cardoso obteve menos votos válidos (53%) do que previra o Datafolha (56%), e foi menor sua porcentagem no total de votos (43%) do que a anunciada pelo Ibope (49%). Tais derrapagens sugerem que ou os institutos melhoram a aritmética ou contratam uma cartomante.

Questão 5 - A mídia é cúmplice - Se os institutos erraram, os grandes e influentes meios de comunicação que publicaram pesquisas ampliaram os equívocos ao praticar um jornalismo desleixado e irresponsável. Divulgaram tabelas com fé de apóstolo e mãos de Pilatos. O Estadão, a Rede Globo e o jornal O Globo estamparam pesquisas do Ibope sem informar a margem de erro. É jornalismo de péssima qualidade a Rede Globo anunciar, no dia 3 de outubro, uma pesquisa realizada entre 22 e 27 de setembro, e iludir o público: "Se a eleição fosse hoje...". Ora, se a eleição fosse realizada entre 22 e 27 de setembro seria a informação correta. As urnas se encarregaram de mostrar que tais "reportagens" estavam com o prazo de validade vencido - como ocorreu em Goiás, Maranhão, Mato grosso do Sul.... Os veículos misturaram, numa mesma edição, porcentagens sobre o total de votos com porcentagens sobre votos válidos, confundindo o leitor, de vez que são números diferentes. Candidatos com chances de passar ao 2.º turno, como Marta Suplicy, em São Paulo, e Marcone Perillo, em Goiás - no final vencedor - foram derrotados pelos institutos e pela mídia antes de o povo ir às urnas. Apesar da informação ruim, os meios de comunicação faziam de conta que nada tinham a ver com a deterioração da mercadoria que compraram de um fornecedor e revenderam ao público. Seu papel era cobrar lisura do fornecedor. Em vez disso, publicavam, como o Estadão em 27/10, uma "reportagem" na qual o presidente do Ibope saía-se com esta alquimia que transforma chumbo em ouro: "Apesar de ter apontado o governador Cristovam Buarque como vencedor no Distrito Federal, ele acha que o Ibope não errou". Em vez de proteger as mazelas dos institutos, das quais foram cúmplices na divulgação de dados errados, esses meios de comunicação deveriam zelar pela boa informação de quem compra notícias.

Questão 6 - Caso de polícia, não de ética - Os institutos foram muito criticados por aceitar pesquisas simultâneas para meios de comunicação e candidatos numa mesma praça. É o que faz o Ibope, que chegou a "trabalhar", na expressão de seu presidente Carlos Montenegro, para os três principais candidatos ao governo do Rio ao mesmo tempo em que fazia levantamentos para a TV Globo. Não há nada de errado nisso. Pesquisa é um produto posto à venda para quem puder pagar. O viés da questão é a honestidade da pesquisa e não o contratante. O pesquisador não tem autonomia metodológica, ao contrário do jornalista, para destacar um dado e relevar outro. Uma sondagem de intenção de voto não comporta "interpretações" que mudem o resultado mais importante: a preferência do eleitor. Se a pesquisa for feita corretamente, o resultado será um só. Ou seja, o método bloqueia o resultado. A divulgação pode ser marota, do tipo "Fulano vencerá a eleição entre as mulheres", mas tal informação não se sobrepõe à de que, na soma dos sexos, Beltrano vencerá o pleito. A questão só prospera se houver suspeita de que determinado instituto frauda o resultado a favor de quem paga - seja o candidato, seja a TV do candidato. Este, no entanto, seria um problema anterior e mais grave que um potencial conflito de interesse: é caso de polícia, não de ética. Se tal descalabro for provado, os institutos devem ser analisados a partir dos artigos do Código Penal que tratam do estelionato.

Questão 7 - Censura para as multidões - A proposta de proibição da divulgação de pesquisas, mesmo que num curto período anterior à eleição, é antidemocrática, elitista e ineficaz. O senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) apresentou um projeto de emenda à Constituição segundo o qual, já nas eleições para prefeito do ano 2000, a divulgação das pesquisas será suspensa quinze dias antes do 1.º e três dias antes do 2.º turno. Isso cunhará uma trava na circulação de informações - um pilar na arquitetura das sociedades democráticas. Pesquisas são informação de interesse público - e, portanto, se forem feitas, como inevitavelmente serão, o eleitor terá o direito de conhecê-las. Se a lei passar, só uma parcela da elite terá acesso às pesquisas encomendadas por candidatos e inevitavelmente divulgadas em mídias restritas, como a Internet e por correspondência eleitoral. Os boatos sobre quem está na frente serão terreno fértil para as fraudes. As distorções geradas atualmente pelas pesquisas, como a inanição do debate político e a espetacularização do marketing eleitoral na TV, devem ser enfrentadas com ações políticas e não com censura. Um exemplo de ação política necessária é a reforma da lei eleitoral, que hoje cerceia o livre debate entre candidatos.

Questão 8 - Os méritos da CPI - A Comissão Parlamentar de Inquérito criada no Congresso, por iniciativa do senador Ademir Andrade (PSB-PA), é oportuna e necessária. Seu primeiro mérito será abrir a caixa-preta da maioria dos institutos. Com a exceção do consórcio Folha-Datafolha, que passou a divulgar, na temporada do segundo turno, os detalhes da sua metodologia, empresas como o Ibope e Vox Populi escondem do público até mesmo a margem de erro de suas pesquisas. Ao final das investigações, a CPI poderá concluir se os institutos são sérios, competentes ou se há fraudes. A comissão poderá sugerir um código de auto-regulamentação pelo qual eles se obrigariam a ser decentes. Não é decente um instituto errar feio e depois alegar acertos, ou registrar uma margem de erro no tribunal eleitoral e divulgar outra pelos jornais - como fez o Ibope. O Congresso pode quebrar a cabeça para criar um serviço independente de auditagem, realizado por ONGs, por exemplo, que ateste a veracidade do trabalho dos institutos. Nenhuma pesquisa poderia ser divulgada sem os dados básicos - como data, universo pesquisado, questão colocada para os entrevistados, distinção entre resposta espontânea e estimulada e margem de erro. Não é ético dobrar a margem de erro - dos usuais 2 para 4,4 pontos - na última pesquisa, como um mau autor de romances policiais que introduz o criminoso nas páginas finais do livro.


Publicado originalmente na Revista da Adusp