Carta do Brasil



O escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral viaja no tempo e relata o que aconteceu com a terra em que se plantando tudo dava


Sérgio Buarque de Gusmão 


Luis o bom Deus que eu voltasse a esta terra, por artes e mandingas aqui indecifráveis, como se escrivão fosse, não da esquadra do almirante Pedro Álvares Cabral, cuja epopéia relatei com graça e gosto em 1500, a ponto de ser considerado pelos pósteros não um árido redator de atas de viagem, mas um etnógrafo observador e sutil dos costumes dos meus pares e do gentio que cá encontramos, e eis que retorno, às vésperas das comemorações dos 500 anos do Descobrimento, primeiro rogando que não se faça conosco a injustiça que há pouco fizeram com Colombo, revisando a história com os valores do presente e acusando-nos de crimes estranhos aos costumes da época, pois assim é fácil ser herói e politicamente correto, e em seguida rogando aos céus que me dêem engenho e arte, não na quota larga conferida a meu patrício Luís dos Versos, que tanto não mereço, mas um tico de sabedoria para enfrentar a tarefa difícil que é contar como está hoje a Terra de Santa Cruz que visitei meio milênio atrás e cuja história fundei com a minha carta a Dom Manuel, O Venturoso, datada de 1.º de maio, uma sexta-feira, comemorada naquela época como uma data santa de abstinência e hoje como o dia nacional da cerveja,

e aqui já vai uma pala de como as coisas mudaram, admito, então, que temo a incumbência, pois, se era simples relatar a paisagem e as gentes, um mataral só e uns selvagens que nem roupa usavam que me obrigasse a distinguir chita de morim, na atualidade está tudo tão grande e complicado, embora a mata tenha diminuído e a roupa também, principalmente das mulheres que se queimam naquelas praias onde acostamos, é tudo tão difícil de entender a ponto de um musicista famoso dizer que o "Brasil é para profissionais", e amador que sou tenho dificuldades para relatar o que vejo, mas limito-me a descrever, que é mais seguro, quanto menos opinião der mais oportunidades terei de salvar a pele ao final deste relato, que de tão grande nem sei por onde começar,

talvez pelo gentio, ainda amistoso e trabalhador tal qual o encontramos e iludimos com miçangas, mas agora, pelo número e pela facilidade como são enganados, submetidos a trabalhos duros e mal pagos, quando há trabalho e paga, bem entendido, pois diante do mito de que o povo daqui não gosta de trabalhar a administração-geral está acabando com os empregos, principalmente dos pobres, agora chamados extratos de baixa renda, e é bem isso, aqueles que a posteridade chamou erradamente de índios, a Índia que sabíamos longe e só fomos depois de tomar posse nesse latifúndio e deixá-lo engordando, como ainda hoje fazem os descendentes dos donatários,

e eu dizia que aqueles supostos índios ainda são a maioria esmagadora da população, e mandam menos que os degredados que o almirante aqui deixou para ascenderam a altas posições na escala social, e, guardando afeição pelos atos que os tornaram banidos, agora são banqueiros, mas tudo se dá com alegria infinita que enleva o coração, e se faz muita festa e anedota, boa parte contra nós, e uma que mais explica o rumo do país diz que quando o Senhor Deus fez o mundo escolheu esta terra como top de linha, me desculpem pelo anglicismo, mas peguei a mania local de dar nomes em inglês a tudo, como se a última flor do Lácio estivesse murcha, e não contentes em nos estraçalhar o idioma, abusando do gerúndio e deslocando os pronomes, falam e escrevem como se tivessem sido pelos ingleses colonizados, a tal ponto que as lojas exigem de nós um dicionário para saber o que vendem, mas, se me desculparam por tão longa digressão, volto ao fio da meada e lhes conto a piada em que estava o Criador burilando essa terra como se o Paraíso fosse, sem pragas, sem pestes, sem desastres naturais e sem a vizinhança da Espanha, e aí o Diabo entrou na história e disse tudo bem, faça lá sua obra-prima, mas pela lei das compensações eu escolho a elite,

e assim é que um país de tantas riquezas físicas e culturais divide-se e reúne-se num lugar que um amanuense chamou de Belíndia, uma mistura de Bélgica e Índia que corresponde à verdade do mapa-múndi, pois cá a Bélgica é pequena e a Índia, continental, e todos os naturalistas que palmilharam este chão de riquezas depois de mim, incluindo o Sr. Humboldt e o Sr. Darwin, chamaram a atenção para os contrastes e os dois brasis, e parece que é verdade, os moradores da Bélgica embolsam quase todo o dinheiro enquanto os da Índia contam trocados, há até 23 milhões trabalhando sem paga, labutando outros como escravos em fazendas, e eu que nunca gostei disso medito se é justo, mas se é melhor silenciar a pena a meus olhos não escapa a injustiça, vendo aqui e ouvindo ali concluí que o povo tem razão para se guardar, pois quem muito reclama vai ver o sol quadrado, os pobres nas delegacias onde dormem em pé por falta de espaço, e os ricos nas prisões especiais com ar refrigerado para os dias de calor, e se a plebe engaiolada faz furdunço a polícia vai lá e mata cem de uma vez,

e por isso tem gente aqui achando que é melhor agir em grupo, sendo verdade cristalina que os locais dão-se bem no que coletivamente fazem, como o jogo de bola e o Carnaval e as pantagruélicas comilanças de feijão com toucinho que lhes legamos, e acreditando nas vantagens do mutirão surge um pessoal que deseja trazer de volta a idéia das capitanias hereditárias, não com as léguas enormes das primitivas, mas com uns palmos de terra onde as famílias possam plantar, medida que aqui se chama de reforma agrária, já que ainda há os que conservam capitanias quase tão grandes como as originais, sem um pé de plantação ou uma criação galinácea, e milhões vagam pelas estradas sem nem ter a cova que um poeta famoso chamou de a parte que a eles cabe nesse latifúndio,

mas a coisa não anda, parece um romance do grande escrivão nacional, cujas tramas decorriam a passo de cágado, indecisas, e, cruz credo, até os mortos falavam, mas não adianta se apressar, é vão puxar pela razão pois nela a realidade não se cria, as reformas sociais estão empacadas desde que o governador-geral Tomé de Souza houve por bem instalar a capital do país na Bahia de Todos os Santos, um lugar-síntese do caráter nacional, muito dado a comes e bebes, e à música, esta sim coisa de gênio, de vez que pegam eles um couro de gato e tiram som divino, inventaram e nos doaram o fado, são inventivos para o bem e para o mal, ao mesmo tempo em que são os maiores falsificadores do mundo, em cada família aprende-se aritmética desde cedo, sabendo cada criança dividir equitativamente um ovo para oito pessoas, e se sofrem com alegria grave é que muita gente nem liga, e outras dizem que a culpa é do governo, que só protege os descendentes dos degredados, tanto que agora tudo aqui é separado, parece o antigo sul da África, para os belgas tem do bom e do melhor, e os indianos frequentam escolas sem giz e hospitais sem esparadrapo,

e vocês precisam ver os transportes, quanto mais caro o carro menos gente leva, enquanto os comboios resfolegam apinhados, o gentio ensardinhado naquelas grandes latas lentas e quentes, e reconheço que em nosso tempo os navios negreiros eram mais confortáveis, resultando isso de o governo ter largado mão dos pobres, só quer vender o que é do público para gastar o dinheiro com o que é privado, agora mesmo deu uma bolada para uns bancos quebrados, um deles da família da nora do capitão-mor, e eles gostaram da nossa colonização, pois se antes nos entregavam a preço de pacova o pau de tinta que lhes deu nome e depois a farinha doce que chamam de açúcar, agora doam para os estrangeiros tudo que é coisa deles, chamam isso de privatização, eu, hem, isso é que é gostar de miçanga, 

dizem que ninguém pode reclamar porque a inflação acabou e o povo todo toma iogurte e põe dentadura, não sei para mastigar o quê, os que têm emprego, é claro, já que nas praças multidões rogam por um trabalho em troca de qualquer coisa, e é interessante como há gente de todo tipo, é uma multiplicidade racial que nenhum país tem, e aliás nosso cartaz quanto a isso continua grande em certas áreas, pois somos louvados como gente simples, dada a casamentos variados, teve até um estudioso que fez um livrão muito bom, de tão bom acho que foi subsidiado pela Coroa, ao fim do qual a gente fica achando que era melhor viver na senzala que na casa grande, mas o homem tem razão quando elogia a cultura tão diversa numa só, 

pois, convenhamos, um sueco a gente sabe que é um galalau rosado, um espanhol reconhece-se pela cara de leso, mas aqui o nativo pode ser um louro alto ou um anão retinto, e estudando a história recente notei que esta diversidade está na galeria dos capitães-mores, pois um deles era baixinho e entroncado e apesar de não gostar do povo e de ter um saco de maldades sem fundo, parecia muito com o povo, tendo até a cabeça chata legada pelos vis holandeses que invadiram a capitania de Pernambuco, e esse tal era daqueles lados, e depois veio um alemão alto que bem lembrava Salazar e mandava torturar os adversários, e na mesma galeria tem um retrato de outro branco e jovem, com nome americano, mas fez um governo em branco e preto, era cheio de rompantes, foi educado na Suíça, e, sabe como é, a Suíça é o lugar onde se guarda dinheiro dos outros, parece que ele gostou da idéia, e o povo o botou pra fora, e veio um comum como um qualquer, cheio de topete, adorava carnaval e odiava lingerie, falava 21 línguas e por isso o mandaram para embaixador em Portugal, e depois deste veio um bem estudado que os mui amigos chamam de príncipe, e ele leva a sério, tanto que mudou o nome do dinheiro para real, ri disfarçado quando o chamam de Dom Fernando, mas, e é ele quem diz, tem a tez dos mulatinhos e um pé na cozinha, e não é que é verdade?, pois toda vez que dá um banquete no palácio se fantasia de Cipião, o Africano, e vai inspecionar a qualidade do salmão, e se não gosta do tempero põe a culpa do Congresso por não fazer o que ele manda, mas o que eu não entendo é que o Congresso faz tudo que ele quer e o homem ainda reclama, talvez por isso ele governe com éditos, aqui chamados de medidas provisórias, eu não entendo, nem os Pedros imperais assim agiam, 

mas é a democracia deles, cheia de trololós, repleta de leis, algumas pegam como as vacinas, outras vão para as calendas, tem uma que diz que todos são iguais, vejam só, mas os pajés do conhecimento explicam que o país é contextual, tudo se resolve na hora, de acordo com a cara do freguês, a República que eu esconjunro e que só cito aqui como fato histórico, por favor me desvie a Inquisição, essa aqui não pegou de jeito e maneira, acho mesmo que tudo continua parecido com o nosso tempo, uma terra de gente roubando e gente roubada, como falou outro português metido a escritor que veio depois de mim, não é ciúme, não, mas sabença de que ele é mais elogiado que eu só porque era padre e teve um estalo, mas, vá lá, escrevia bem o danado, tanto que num Sermão do Bom Ladrão falou que "Perde-se o Brasil (digâmo-lo em uma palavra) porque alguns ministros de Sua Majestade não vêm cá buscar nosso bem, vêm cá buscar nossos bens",

é assim, numa crônica rápida, o país do futuro, se fui amargo não pensem que sou do contra, quero é imitar o capitão-mor e dizer "Esqueçam o que eu escrevi", pois agora vejo que em se plantando nem tudo dá, principalmente a equidade e a justiça social, e se terminei minha primeira carta pedindo a Dom Manuel por meu genro Jorge de Osório, degredado em São Tomé, não perco a pinta e ora peço por todos os Jorges de Osório que aqui habitam, pobres, humilhados, degredados em sua própria terra, até logo e passem bem, que apesar dos pesares vou ficar por aqui, montar uma padaria e me amigar com uma cabrocha.


A segunda carta brasileira de Pero Vaz de Caminha foi ditada ao jornalista Sérgio Buarque de Gusmão. Publicado originalmente na revista Vértice, de Lisboa, edição de maio-junho de 1998