As banhas da felicidade



Ficção


Sérgio Buarque de Gusmão


Eu sempre quis ser gordo. Gordo mesmo, não robusto - este magro que tem uns quilinhos a mais. Queria ser um daqueles gordos que ocupa dois lugares no avião, não é convidado para jantar e ao qual um pai severo confia a filha para ir ao baile. Gordo cinco arrobas, como era chamado, para minha mortal inveja, um pesado amigo de adolescência. Acho que essa idéia de expansão horizontal nutriu-se em minha magérrima alma lá pelos 14 anos, quando eu estava no ginásio.

Eu comecei a atender quando ouvia alguém gritar "bolo fofo" para o meu amigo untuoso. Ah!, esse apelido queria para mim - dizia cá pras minhas visíveis costelas. Uma colega intelectual, que nunca me animou porque só comia um prato, ia me chamar de "nédio". Eu ia dar aquele risinho cúmplice de quem entendeu, e na hora do recreio, correr ao dicionário da biblioteca. "Nédio - lustroso por efeito da gordura". Claro, esse era um dos meus fascínios pela sonhada gordura: a macia, tenra pale dos gordos. Pele de gordo é gostosinha que nem a de bebê, notaram?

O Carlão era tudo o que eu queria ser. Tinha a minha altura, a mesma idade, era bem mais burrinho que eu, mas me humilhava com a superioridade física: tinha cinco vezes o meu volume. Eu gostava do Carlão, mas não queria andar com ele. Meu secreto medo era que alguém nos apelidasse de "O gordo e o Magro". O adiposo Carlão tinha a zelar por seu graxo corpo o mais dedicado exército familiar; a mãe e duas tias cozinheiras, as mais famosas quituteiras da cidade. E as mais competentes filósofas do movimento calórico. Elas discorriam horas sobre que cursos mais brandos, igualitários e fraternos a sociedade humana teria assumido se todos os homens fossem gordos. "Gordo é bom", ensinava dona Margarida. Por sinal, a mais gorda das três. Eu adorava ouvir as digressões daquelas mulheres sobre gorduras e, de quebra, rapar os tachos de doces que elas faziam diariamente para a sobremesa de seu sobrinho. Em casa, eu era a alegria da mamãe na mesa. Ela nunca precisou me mandar comer. Devorava os pratos do café da manhã à ceia, repetia, dobrava a sobremesa, insistia para que o almoço de domingo fosse galinha assada porque comia tudo. Mas, quando começou a notar que eu não engordava minha mãe se preocupou. "Deve ser porque está em fase de crescimento", explicou-lhe seu Mateus, o farmacêutico.

Mas o diabo é que eu comia demais e não crescia tanto. "Deve ser solitária", sugeriu dona Silvia, uma vizinha magra e chata. Só um médico da capital tranqüilizou minha mãe e me deixou comer em paz: "É o metabolismo. Ele não funciona. Pode comer um boi por dia que será sempre magriço", ensinou o médico. E eu voltei alforriado às terrinas e à depressão de ser magro. Claro, nem todo mundo aprovava meu amor pelas banhas. A Marilu, por exemplo.

- Gordo não arranja namorada - ela me cutucava, ainda no ginásio, ardendo de vontade de que eu não engordasse.

- Um bom gordo, o verdadeiro gordo, sublima essas coisas - eu dizia, ar superior. Como quem não quer nada. Mas meu sonho eram aquelas mulheres do Fellini, mais gordas que minha imaginação.

Nos meus devaneios mais literários, me imaginava o Winston Churchill, o maior estadista de todos os tempos, O Jô Soares tava começando a carreira, ninguém conhecia ele. Só eu. Já gritava "Viva o Gordo" quando ele aparecia numa ponta da TV. A Wilza Carla, então... Fã de primeira fila. Mas eu gostava mesmo era de ver concurso de Rei Momo. Gostava e sofria. Aquelas banhas todas... Como a natureza é injusta, pensava. E achava que a injustiça era ainda maior quando via minhas primas comendo só maçã no almoço e uma torrada no jantar para não engordar 123 gramas. Aqueles palitos doidos para afinar e eu louco para estufar. Fiz tudo quando era dieta. Durante um mês só comi feijoada. Noutro, macarrão da manhã à noite. Nada. Já no fim da adolescência, tive uma sacada ao pensar que muita gente engordava como meio de satisfazer um desejo insatisfeito. Caramba, eureka! Só que eu tinha desejo, e plenamente insatisfeito, mas essa teoria comigo não funcionava.

Aí é que veio a sacada: fiz regime. A primeira semana andei meio tonto à custa de maçã e uma torrada que capturava nos pratos de minhas primas. Na semana seguinte, comecei a sentir uns pneus rodando em minha barriga e corri para a balança: 1,2 quilos a mais. Eu delirava. Reduzi a dieta para meia maçã e meia torrada, e aí disparei. Minha mãe olhava de lado, mas, se achava esquisito, não deixava de gostar: eu já não era um peso no orçamento doméstico. Com o apoio da família, só bebia água, uma frutinha vez em quando. Em quatro meses pesava 134,5 quilos, e enfim me vi um homem feliz.

Prosperei em tudo. Disparei na escola, namorei com quem quis, fiquei amigo de todos, sabe como é, alto astral, alma leve, sujeito realizado na vida.

A única coisa que me irrita são as piadinhas do Policarpo. O Policarpo é meu amigo lá do clube. É um cara muito preocupado com o Brasil. Tem teorias e soluções para tudo. Fala horas sobre raças, centimetragem do crânio, lavoura de jojoba, explosão demográfica.

O Policarpo trabalha no governo e vive debruçado em mapas estatísticos sobre inflação, salario real, greves, reivindicações. Seu tormento é criar empregos para 2 milhões de brasileiros todos os anos, arranjar comida para mais 130 milhões, atender aos pedidos de aumento da maioria. É nos picos desse tormento que ele me chateia. Com um olhar malicioso de quem conhece meu segredo, vive me dizendo:

- Meu amigo, você é a solução pro Brasil.

Sérgio Buarque de Gusmão é jornalista, mede 1,68m e pesa 66 quilos.


Publicado originalmente na revista Classe, nº 2, sem data completa, mas do ano de 1985