A patrulha que viaja no tempo


Sérgio Buarque de Gusmão


Os anúncios de filmes, peças e livros geralmente vêm acompanhados de uma frase elogiosa extraída das críticas dos meios de comunicação. A produção do musical Os lusíadas, em cartaz em São Paulo, teve de usar uma citação do jornal português Correio da Manhã para ilustrar o anúncio do espetáculo. A imprensa paulista ou se omite ou faz restrições ideológicas. Na Folha de S.Paulo (7/4), o crítico Sérgio Salvia Coelho traz de volta o pseudo-radicalismo político de classificar a obra-prima de Luís de Camões como apologia do colonialismo português. "Exaltação sem reservas do herói colonizador soa constrangedora no contexto da comemoração dos 500 anos e anacrônica mesmo para Portugal", diz o crítico.

Está armada, novamente, a patrulha anticolonialista que condena na história o pastel de Santa Clara. Exaltação sem reserva só mesmo do beiju na folha de bananeira e do acarajé com malagueta, obras de índios e escravos, as matrizes politicamente corretas do povo brasileiro. Esses críticos fazem terapia das vidas passadas com o inconsciente dos outros. A pajelança retroativa é que é produto do colonialismo contemporâneo. Extrai suas patacoadas do circo armado nos Estados Unidos, onde o passado é revisto com os valores do presente. O escritor Mark Twain é banido das escolas ou só admitido com a ressalva de que um tesouro da juventude como As aventuras de Huckleberry Finn é "ofensivo" e usa "linguagem racista". Os 500 anos da América não foram comemorados, mas lamentados, porque Colombo foi considerado um invasor.

Por este paradigma, obras capitais da humanidade devem ser enxertadas de cláusulas restritivas. Qualquer apreciação estética da Mona Lisa tem de ser acompanhada da denúncia de que Da Vinci a fez por encomenda do marido da Gioconda. Talvez a modelo risse da venalidade do artista. Miguel Ângelo (que em italiano se escreve Michelangelo) também precisa ser enquadrado na exaltação com reserva. Afinal, colocou sua arte a serviço de papas ímpios e entregou-se a temas opiáceos, ícones de uma ideologia religiosa repressora, como os afrescos da Capela Sistina, as estátuas de Davi e Moisés. Se admirar Guernica, o libelo de Picasso contra o franquismo, o incauto observador tem de ser alertado de que o pintor era republicano, seu pincel era guiado por uma causa política, etc. e tal, e ele ignorou a opinião do outro lado. Em Belém, a patrulha politicamente correta botaria uma tarja negra nas obras de Antonio Landi, arquiteto do colonialismo português, pau-mandado do Marquês de Pombal.

Nenhuma obra de arte pode ser vista fora de sua época, do chamado contexto histórico, das contradições e das lutas sociais, dos impactos da estrutura social na condição humana. Os clássicos, sobretudo, expressam essas nuanças e as universalizam para todo o sempre. As contradições da época e o caminho do artista servem para explicar, não para retocar o trabalho. Filtrar a História através de uma obra de arte, ou vice-versa, é perder o entendimento de ambas.

Queriam o quê? Que Camões tivesse consciência do caráter "imperialista" da empreitada de Vasco da Gama e o denunciasse como um saqueador de povos? Os Lusíadas são um farol do Renascimento - "a maior revolução progressista que, até nossos dias, a humanidade conheceu", escreveu Frederico Engels, no Anti-Dühring, em 1878.

Engels, ele sim um radical na política, não fez retoques demagógicos. Já apontava, no século XIX, o disparate, "cada vez mais habitual, particularmente nos literatos de segunda categoria", que é "compensar a ausência de capacidade literária mediante alusões políticas, com as quais se acredita causar forte impressão." Defendia a literatura de tese, mas, num trecho que parece ter sido escrito sob medida para os que atacam Camões, disse acreditar "que a tese deva decorrer da própria situação e da própria ação, sem que se insista explicitamente sobre ela, não sendo o poeta obrigado a colocar nas mãos do leitor a solução histórica futura dos conflitos que ele descreve."


Dinheiro fácil tem volta difícil


Não leve a sério essas bravatas de que o dinheiro desviado da Sudam será recuperado. Primeiro, porque uma parte das fraudes escapará da lei antes de qualquer iniciativa jurídica. A lei 8.137, que trata dos crimes contra a ordem econômica e tributária, diz que esses crimes prescrevem em quatro anos. Portanto, as maracutaias cometidas até 1997 ficarão para as calendas.

Depois, é visível que este governo não cobra nem imposto - exceto o fácil de arrecadar, como o da renda dos assalariados e a CPMF, recolhida por computadores. A indigência do Estado - em rigor, indulgência e conivência - ajuda a explicar a audácia dos fraudadores e sonegadores de impostos O Ministério Público não tem recursos compatíveis com o do batalhão de advogados dos transgressores. Acompanham os processos com olho de lince para as falhas que conduzem ao arquivamento. Encomendam laudos, pareceres e contam com um exército de assessores.

No Ministério Público, em defesa do interesse social, a infra-estrutura de trabalho é franciscana. Um procurador, desses mais conhecidos, dispõe de uma secretária e de um computador. Um procurador do INSS cuida em média de 1400 processos de sonegadores e empresários que roubam a Previdência. É gente que não paga sua contribuição e ainda desconta a taxa do empregado e embolsa o dinheiro. A dívida é de R$ 100 bilhões - cinqüenta vezes mais do que se estima para o roubo na Sudam.

É impossível os procuradores acompanharem à vera mais que 10% desses processos. Perdem os prazos ou simplesmente ignoram a maioria das causas, fixando prioridades exeqüíveis, e os sonegadores ficam impunes. No Brasil oligárquico, só a morte é inevitável.


3 x 4 de artista

Cartazes da história - O álbum Robert Capa - Fotografias (Cosac & Naify, 2001) sai com legendas em português. Suas fotos de grandes conflitos do século passado são cartazes da história. O húngaro Capa (1911-1954) é um dos maiores nomes do fotojornalismo mundial. Esteve na Segunda Guerra, na Indochina, em Israel. Na Guerra Civil Espanhola, em 1936, flagrou um soldado desconjuntando-se no ar, atravessado por uma bala; pode-se ver a morte descendo seu manto negro. E Capa não usava câmera a motor, como Sebastião Salgado. Tal qual todo fotógrafo de guerra, tinha um quê de suicida. Seu lema era chegar o mais perto possível. Morreu ao pisar numa mina quando fotografava a Guerra da Indochina.

A bordo da câmera - Luís Braga fotografa crianças trocando espontaneidade. Faz da fotografia sobretudo um recorte da realidade, e não apenas um retrato da sua visão do mundo. O movimento da câmera será sempre arbitrariedade pessoal, pela escolha da cena, pelo enquadramento, pela opção da luz. Sem isso será xerox. Mas em vez de fazer da lente um espelho narcisista, Braga leva nosso olho ao visor do microscópio.


Cozinha de tabuleiro


Em qualquer grande cidade do mundo, é regulamentado o comércio de comida na rua, mas em São Paulo é proibido. Ninguém dá a mínima, e persiste a tradição do churrasco grego, do pastel de feira e, mais recentemente, em cada aglomeração ou em esquinas movimentadas estabelece-se um novo tipo de delinqüente, o dogueiro, vendedor de cachorro-quente, com salsicha e um bufê de acompanhamentos que vão da clássica mostarda ao purê de batata. Há 150 anos vendiam-se cuscuz de lambari, bolos de milho e tanajura torrada.

A comida de rua é típica de países tropicais e, no caso brasileiro, uma herança de escravos que, mesmo antes da Abolição, acocoraram-se nas esquinas e praças com os pitéus da senzala ou de tradição portuguesa, como o arroz-doce. O restaurante, que surgiu na França, durante a Revolução, veio para o Brasil com a família real, em 1808 - embora já no século XVIII houvesse hospedarias que servissem comida, a começar do portuguesíssimo feijão com toucinho que originou a feijoada. 

Gilberto Freire baba, em Casa Grande & Senzala, com a comida de tabuleiro da Bahia e a doçaria das negras forras de Pernambuco. Se todos cantam sua terra, nunca houve melhor comida de rua que a de Belém. O cachorro-quente do Pernambucano, o tacacá de muitas bancas, um cariru abençoado por Cosme e Damião na esquina da Manuel Barata com a Presidente Vargas, peixe frito com farinha d´água nas biroscas da Padre Eutíquio, o munguzá na noite fria do lugar mais ermo, a tapioca com lascas de coco derretido da igreja de São Raimundo. Os doces de tabuleiro, apregoados por garotos, principalmente quebra-queixo e cocada. Açaí, não, que é manjar doméstico para um íntimo sorriso de ametista.

Tudo prático e simples. A embalagem do refrigerante pra levar, antes do recipiente de lata, foi um triunfo da inventividade na necessidade. O canudinho, preso num saco de plástico, resolvia um problema sério do comércio, o freguês sem vasilhame. O brasilianista Mathew Shirts nota que dono de bar no Brasil vende a mãe fiado, mas só empresta garrafa se o cliente tiver muito prestígio.


Flor do Lácio

Pérola da revista Superinteressante, numa reportagem sobre a formação da língua portuguesa no Brasil: "Região Norte - A Amazônia fala de um modo bem diferente do vizinho Nordeste. A razão para isso é que lá quase não houve escravidão de africanos. Predominou a influência do tupi, língua que não era falada pelos índios da região, mas foi importada por jesuítas no processo de evangelização." 

Bem, os índios que viviam na região onde foi fundada a Cidade do Pará - portal e pólo de colonização da Amazônia - eram os...tupinambás. Também falavam idiomas do tronco tupi os urubus do Caeté e ainda falam os assurinis (do Xingu e do Tocantins), os paracanãs e os suruís, entre outros. Os jesuítas codificaram uma espécie de portupi que ficou conhecido como língua geral. A base foi célebre obra do padre José de Anchieta, A arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil.



Miscelânea


  • Saudades de Joaquim Antunes. Gordo, enfático, trocadilhista divertido. No avião, lendo jornal, era importunado por um garoto que corria no corredor. Ele: "Menino, vai brincar lá fora, vai." 


  • Beethoven é o ápice da música. Onde houver um ser humano, a Quinta Sinfonia fará sentido, seja numa praça de Bonn ou no barranco do rio. Foi aluno de Mozart. Dizem que a música de Mozart vai direto para o céu, e a de Beethoven vem de lá. 


  • O artigo A barba do meu avô, de Denis Cavalcanti, é para leitor de nervos de aço. Os emotivos como eu lubrificam os olhos na saudade de um avô ou pai que hoje lamentamos não ter abraçado mais. 


  • O governo atualizou o indexador da pobreza. Pobre agora é quem tem renda per capita familiar de R$ 60 mensais. Subiu R$ 10. 


  • O historiador americano Robert Danton escreve na Folha de S.Paulo sobre a patacoada de um campus da Universidade da Califórnia, em Monterrei, cujo projeto não incluía biblioteca. Não se pode, portanto, recomendar ao arquiteto ágrafo que leia Farenheit 451, de Ray Bradbury. Mas que ao menos alugue na locadora o filme de François Truffaut sobre uma sociedade em que os livros tiveram de ser encadernados na memória.


  • Sai pela Editora do Senado uma reedição de Viagem ao Brasil (1865-1866), de Luís e Elisabeth Agassiz. Ele já era cientista consagrado quando veio ao Brasil, considerando que Humboldt foi proibido de entrar e o que Alfred Wallace ainda não granjeara a fama e a sacada de formular a teoria da seleção das espécies ao mesmo tempo que seu conterrâneo Charles Darwin. 


  • Agassiz descreveu espécies novas de peixes e plantas e levou uma fatia da floresta para os Estados Unidos. O livro foi escrito por madame, que fez um relato arguto e agradável da Cidade do Pará em 1865. Gostou muito das manhãs frescas e do açaí.


22/04/2001 

Publicado originalmente na revista virtual Belém do Pará