A jóia de Taunay



AVE, PALAVRA


Sérgio Buarque de Gusmão


Quase todas as palavras da língua portuguesa vieram do latim e da fonte em que o latim bebeu, o grego. A maioria tem origem num radical que atua como um grande patriarca. São úteis, importantes, mas não têm graça histórica. Fascinantes são as palavras nascidas de pessoas, episódios, práticas e que passam à língua como homenagens ou associações. Gari vem do lixeiro carioca Aleixo Gary. Brechó deriva de Belchior, um comerciante de roupas usadas também do Rio. Bunda era uma tribo africana de traseira avantajada.

Os inventores de palavras merecem tanto reconhecimento quanto os criadores de objetos. O jornalista Elio Gaspari criou brasilianista (ficaria melhor com z) para designar os estrangeiros que estudam o Brasil. Augusto Nunes lapidou, numa reportagem da revista Veja, a expressão Lei de Gerson, baseada no anúncio de cigarro que o jogador da Seleção de 1970 fazia na TV. O ministro do Trabalho no governo Collor Antonio Rogério Magri, muito criticado pelos elitistas, foi reconhecido pela Academia Brasileira de Letras e sua criação imexível figura no erudito Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

Os neologismos estão por aí, como as pepitas, à espera do garimpeiro. Mas a moda é comprar a jóia feita e adotar palavras estrangeiras para designar as novidades, daqui e de fora. Já não se criam situações como a que enlevou o escritor Alfredo D´Escragnolle, Visconde de Taunay, autor do romance Inocência e de um esplêndido relato sobre um episódio da Guerra do Paraguai conhecidos, o episódio e o relato, como A Retirada da Laguna. O livro foi escrito em francês e traduzido para o português pelo filho do autor, o historiador Afonso d´Escragnolle Taunay, também um renomado lexicógrafo que se divertia apontando erros dos dicionários.

O velho Taunay (1843-1899) foi um daqueles sábios humanistas que engrandeceram o Brasil no século passado: além de escritor, destacou-se como engenheiro-geógrafo, militar (lutou como major no Paraguai, daí o relato), professor de História, Línguas, Mineralogia, Geologia, Botânica, senador e presidente das províncias do Paraná e de Santa Catarina. Mas gostava, mesmo, era de palavras. Tratava-as como gente, a amor e a pontapé. "As palavras possuem fisionomia própria, tipo peculiar, que nos inspira simpatia ou repulsão", dizia, e muitas vezes pedia a cumplicidade dos leitores. Se escrevia caturrar, perguntava: "Não acham tão simpática essa palavra?".

Seu xodó era um termo que recolheu no vocabulário dos campos de Mato Grosso - mapiar, "usado por grandes e pequenos, instruídos ou não, e que exatamente corresponde ao caturrar lisboeta", ou seja, tagarelar. Usou-o no primeiro capítulo de Inocência. Como um amante cioso, exibiu sua jóia vocabular uma única vez, num texto de 50.708 palavras: "Uma coisa é mapiar à toa, outra andar com tento por estes mundos de Cristo." O romance saiu em 1872. Anos depois, ao preparar nova edição, o escritor enterneceu-se ao reencontrar a palavra. "Ao rever Inocência e ao se me deparar o meu mapiar, senti verdadeiro movimento de alegria, como se, de repente, ao dobrar uma esquina, cara a cara, algum conhecido meu, quase amigo, de quem me tivesse separado há muito, em longínquas terras." Notem que escreveu "o meu mapiar", embora o verbo fosse de domínio público.

Por estas e outras, em 1872 Taunay experimentou a glória de receber uma encomenda de palavra. O Dr. Ferreira Viana, presidente da Câmara Municipal do Rio, decidiu retirar o depósito de cadáveres de um "quartinho escuro e indecente", na ladeira da Conceição, para um edifício moderno no Largo do Moura. O depósito de cadáveres era então chamado de morga - usado fugazmente pela imprensa no lugar do francês morgue. Ninguém gostava daquele palavrão. Num gesto impensável hoje em dia, a Câmara encarregou Taunay de criar uma palavra para designar o local.

Ele ensaiou combinações, seguindo a regra de formar hibridismos com termos do mesmo idioma (criticava o fundador do positivismo, Augusto Comte, por ter forjado sociologia com elementos do latim e do grego). Depois de "parafusar sobre o caso não poucos dias", Taunay partiu de cemitério, fascinado com a palavra ("Como é formosa, com efeito, e expressiva! Vem do grego coimeterion e significar dar proteção ao sono"). Juntou, separou, cortou, fundiu e entregou sua obra aos vereadores. Em 1873, foram inaugurados o edifício e sua designação, estampada na fachada: necrotério. O Brasil, tradicional importador de palavras, desta vez exportou uma para o mundo.