A difícil escolha do herói


Sérgio Buarque de Gusmão


As Organizações Rômulo Maiorana vão promover um concurso para escolha do Paraense do Século XX. Uma prévia, realizada em instituições públicas, gerou uma lista preliminar de dez nomes. Uma ausência piscante: Lauro Sodré, republicano histórico, governador e senador, candidato da oposição à Presidência da República na eleição de Campos Sales. Uma grata presença: Gaspar Viana, cientista que trabalhou com Osvaldo Cruz, no Rio, mas morreu prematuramente, aos 29 anos. 

Fazer uma lista dos dez mais, com seriedade e senso de proporção na História, é tarefa difícil. Afora uma escolha muito determinada, motivada pela admiração irrestrita, as indicações devem ser balizadas por critérios consistentes, ou ancoradas num conceito genérico que permita a reunião de próceres de atividades diferentes, seja no bem ou no mal. Qualquer resultado desagradará a maioria, porque não há um vulto próximo da unanimidade. Num concurso da revista IstoÉ, o presidente Juscelino Kubitscheck foi eleito o Brasileiro do Século com 21,1% dos votos. 

Quando o Almanaque Abril estava organizando a edição especial Quem é quem na história do Brasil, uma jornalista que lá trabalhava consultou-me sobre a lista em preparação. O desafio era selecionar “500 personalidades que fizeram a diferença na formação do país”, uma para cada ano desde o Descobrimento. É tarefa fácil até o 500º nome. Aí se esgotam as figuras que entram sozinhas numa lista desta natureza, e sobram nomes e divergências. Na música, que tal Renato Russo? Nem pensar. Luís Caldas, inventor da tal “axé music”, foi mais importante. 

Os óbvios já estavam na relação que recebi, inclusive quatro do Pará: o militar e sertanista Francisco de Melo Palheta, que introduziu o café no Brasil; o atirador Guilherme Paraense, primeiro brasileiro a ganhar uma medalha olímpica, nos jogos da Antuérpia, em 1920 (em rigor, ganhou as três, de bronze, de prata e de ouro); o pintor surrealista Ismael Nery e o ator Sérgio Cardoso. Sugeri tirarem alguns nomes, sobretudo de reis portugueses, e o do navegador Vasco da Gama, protagonista dos Lusíadas, que merece figurar em qualquer galeria dos heróis do segundo milênio mas não se coadunava com a lista brasileira. Renato Russo ficou e Luís Caldas não entrou. 

Tampouco aceitaram a sugestão de incluir, entre outros, Nílton Santos, a Enciclopédia do Futebol, o jornalista Edmundo Bittencourt, o padre voador Bartolomeu de Gusmão, o médico-sertanista Noel Nutels, a Joana D´Arc brasileira Maria Quitéria e o poeta Raul Bopp, que, além de esculpir o primoroso poema amazônico Cobra Norato (“um soturno bate-bate de atabaque de batuque”), introduziu a soja no Brasil. 

Das minhas indicações foram aceitos o dicionarista Aurélio, o crítico Antônio Cândido, o etnólogo Curt Nimuendaju, o historiador Francisco Varnhagem, e dois adversários na mesma guerra, o almirante Barroso e o chefe da Cabanagem Eduardo Angelim. (Para os que estranharem a presença do almirante: Francisco Manuel Barroso da Silva (1804-1882) foi um estrategista militar brilhante e principal responsável pela vitória na batalha do Riachuelo, decisiva na Guerra do Paraguai. Foi oponente de Angelim porque, como soldado do Império, tomou Igarapé-Mirim dos cabanos, em 1836). E sugeri também, naturalmente, Charles Miller (1874-1953), o brasileiro filho de inglês que em 1894 organizou na várzea o jogo de bola em que nos tornamos os artistas do mundo. 


Flor do Lácio

Saudosos da pharmacia – Que história é essa de Paysandu? Quando foi fundado, em 1914, o clube homenageou a tomada de Paysandú, pelo almirante Tamandaré, na Guerra do Paraguai, em 1864. Com a reforma ortográfica de 1943, virou Paissandu, como Nictheroy mudou para Niterói, Guarany passou a ser Guarani e o Avahy Football Club tornou-se Avaí Futebol Clube. Uma rua e um cinema famosos, e um clube de ingleses, no Rio, e um largo central, em São Paulo, também foram alterados. Quando zelavam pelo idioma, os jornais só escreviam o nome do time com i e dois esses. Mas uma parte da imprensa (Folha de S.Paulo, O Liberal, etc.) ressuscitou a velha ortografia. A revista Veja dobra o erro: “Payssandu”. Esse pessoal parece saudoso do tempo em que se escrevia farmácia com ph. Logo mais vão escrever “Travessa Padre Eutychio”. 

Armadilhas do sinônimo – Professores de redação incutem em alunos a idéia de que é feio repetir palavras. Seria pobreza de vocabulário. Na maioria das vezes, a repetição é o melhor estilo. Buscar sinônimo pode levar a nosocômio por hospital, nubente por noivo, água por precioso líquido. No romance Quarup, Antonio Callado abusa da repetição de “disse” para marcar os diálogos dos personagens. Um revisor mudou para afirmou, declarou, obtemperou, redargüiu...Ele esbravejou e pôs tudo de volta. Na mão desses mestres da unicidade léxica, a paródia de Gertrude Stein, “uma rosa é uma rosa é uma rosa”, seria reescrita para “uma rosa é uma flor é uma planta”. 


Macaquices do Brazil 

Silicone no Halloween – Juliana Borges, nova misse Brasil, tem 1,80m, 58kg, 60 cm de cintura, 90 de quadril, e 165 miligramas de silicone nos seios. Como o foxtrote, o McDonald´s e o e-mail, o silicone é um sinal da sempre crescente americanização do Brasil. O seio farto, à Jayne Mansfield, atriz dos anos 50, apropriadamente apelidada de “O Busto”, ou da contemporânea Pamela Anderson, do seriado SOS Malibu, é mania nos Estados Unidos. Basta olhar os melões das coelhinhas da Playboy. No Brasil, onde o sutiã médio é 36, os seios das moças sempre balançaram num modesto segundo lugar na preferência nacional. 

Mas as cirurgias de aumento, que eram 10% do total nas operações de mama há três anos, subiram para 60% em alguns consultórios de médicos ouvidos pela revista Corpo. Haja macaquice. Nos anos 80, jovens negros de São Paulo afilavam o nariz para parecer com Michael Jackson. Hoje, mulheres bonitas, de anatomia divinamente proporcional, como Carla Perez e Daniele Winits, aumentam os seios e vão à festa de Halloween

Farinha e pimenta – A comida nacional é feijão, arroz, farinha, pimenta e o que mais houver. Muitos restaurantes de São Paulo não servem farinha. Não a seca ou a d´água, que seria pedir muito, mas nem sequer a velha farinha-de-guerra, fina como carimã, que sustentou os bandeirantes e reduziu a mortalidade dos escravos na travessia do Atlântico. Há o perigo de se pedir qualquer uma e receber uma tigela de trigo. Este Brasil cosmopolita vira as costas para a sacada de Anchieta: a mandioca é o “pão dos trópicos”. 

A pimenta onipresente é americana, Tabasco. Onerar a balança comercial com importação de pimenta é um escárnio econômico-culinário num país que tem numerosas variedades. A de cheiro, típica do Pará, de aroma e sabor inigualáveis, torna qualquer comida um pretexto, e nos lembra o verso de Jorge de Lima: “Comer efó / pimenta, jiló! ...Iaiá, me diga, / nessa comida / você botou / mulata em pó?” 

As matrizes do povo brasileiro adoravam pimenta. Os portugueses, que nos legaram o molho, a levavam de onde encontrassem (Vasco da Gama voltou a Lisboa carregado), os africanos sempre foram grandes consumidores (a malagueta, que muitos pensam do Brasil, veio da Guiné) e os índios socavam as espécies nativas para comer peixe com o que mais? Farinha, é claro. Tabasco...O colonialismo é uma serpente de sete cabeças.


Dos leitores 

Álvaro Nelson Saunders Silva, de Moji das Cruzes (SP), diz, numa bela imagem, que “A Cabanagem é como semente de sumaúma jogada na história brasileira.” 

Lindolfo Lima, do Rio, acha que Quarentina deveria figurar na lista dos dez maiores paraenses do século. “Terrível ironia ler sua bela homenagem, justamente, quando uma relação de conterrâneos ilustres é apresentada e dela não faz parte o nome do craque paraense, preterido ainda que involuntariamente por outros paraenses de méritos, mas ainda assim o nome de Quarentinha brilhou mais longe, mais alto...” 

Itajaí de Albuquerque, de Belém, esclarece que a grafia de nomes indígenas com k, w e y é uma convenção da Associação Brasileira de Antropologia, datada de 1953. Agradeci o gentil esclarecimento e ponderei que “os antropólogos e sua convenção estão errados. Deveriam unir-se à Academia Brasileira de Letras, que cuida do Vocabulário Ortográfico, e providenciar, com critérios, o aportuguesamento dos nomes indígenas.” Ou vamos tolerar que uma convenção de médicos decida escrever “klawykula”.


Miscelânea

  • Imagino a satisfação de Gilberto Freyre, esparramado numa espreguiçadeira no Solar de Apipucos, vendo Camila Pitanga na novela Porto dos Milagres. É o triunfo apolíneo do que ele e Darci Ribeiro exaltaram na miscigenação. 
  • Justiça seja feita: a Sudam cancelou 213 projetos desde 1994. 71 não receberam um centavo porque a fraude foi descoberta a tempo
  • João Gilberto, 70 anos. Caetano Veloso diz que ele é um dos poucos melhores que o silêncio. 
  • Ainda existe o Café Palheta? Rara homenagem a este paraense que introduziu o ouro vegetal no Pará (e no Brasil) em 1727. Considerando a riqueza que o café gerou, Palheta deveria ser reverenciado. 
  • Como se fala mal do Brasil! O sujeito tropeça na rua e desabafa: “Este país é uma droga”. O ministro José Serra cunhou a expressão “ódio-próprio nacional”. 
  • A Alca é a sociedade do porco e da galinha para produção de lingüiça com ovos. Mercosul, sim, mas, embora seja necessário, é difícil ser solidário com a Argentina. Um país que se desnacionalizou, se vendeu, adotou a moeda de outro e fez tudo para ser o 51º estado americano. 
  • Está em curso a desnacionalização das editoras. O grupo francês Havas comprou a Ática e a Scpione, em sociedade com a Abril. O espanhol Prisa levou a Moderna, forte em livros didáticos. 
  • Chove a potes em São Paulo. Temporais de Marcio Souza em Mad Maria. Aí falta luz e caem os sinais da TV e da Internet a cabo. Bairros inteiros alagam. Carros bóiam nas ruas como botos metálicos. Nenhum burocrata consegue explicar ao povo por que vai haver racionamento de água. Botam a culpa nos consumidores, que gastam demais. Na Europa...Nos Estados Unidos...Ora, eles não têm as chuvas nem os 12% da água doce do mundo que o Brasil tem. É falha no armazenamento, pura incompetência. Essa gente sabota a democracia. 


01/04/2001 

Publicado originalmente na revista virtual belemdopara.com.br