500 Anos:  Quem é quem no Brasil


A boa e incompleta e difícil lista de 500 personalidades 
"que fizeram a diferença" na história do Brasil


Sérgio Buarque de Gusmão


Como uma das mais positivas iniciativas sobre os 500 Anos, o Almanaque Abril editou a publicação especial Quem é quem na história do Brasil, com 500 biografias de artistas, políticos, empresários, escritores, cientistas, atletas, cineastas, religiosos "que fizeram a diferença na formação do país". Todos mereceram uma biografia e, alguns, um texto de suporte ou uma entrevista, em geral antiga, porque a maioria dos homenageados já morreu. Dos vivos há uma pérola nacarada e recente: uma breve entrevista (e com foto) do empresário Otavio Frias de Oliveira, dono da Folha de S.Paulo, que evita fotógrafos e repórteres. 

Parece ser fácil preparar uma lista com 500 nomes de pessoas influentes na história do Brasil. Da relação do Almanaque constam, por um bom critério, todos os presidentes da República. Os óbvios e as unanimidades vêm pela memória - Cabral, Tiradentes, Pelé e umas três centenas de coroados pela unanimidade. À medida que se relacionam os nomes vai-se, no entanto, descobrindo que a facilidade termina quando se chega ao 500º e ainda sobram pencas de personalidades. 

A lista do Almanaque Abril não escapou de uma tentação óbvia - a proximidade. Mais de dois terços são personalidades do século XX, muitas delas vivas, ainda trabalhando para imprimir na história do País a marca de sua trajetória. Figuram nessa categoria artistas contemporâneos cuja obra murcha ao ser retroagida por cinco séculos - se o momento histórico em que exerceram sua influência for considerado. É o caso de uma penca de artistas plásticos - e como tem artista plástico! - e empresários que parecem ter entrado por causa de um hipotético sistema de quotas. 

A galeria de "músicos" é também enorme, e ainda deixa no sereno do baile da história talentos como o arranjador Rogério Duprat e os compositores Donga, Orestes Barbosa e Ismael Silva. Inclui Renato Russo, cuja biografia não registra pioneirismo nem idéia transformadora nem acordes dissonantes na partitura música brasileira. Em contrapartida, a lista também exclui Luís Caldas, que não canta em italiano mas é o inventor da tal "axé music" de tanta influência na melodia e no gingado brasileiro. Na literatura, tem Olavo Bilac mas não Coelho Neto e uma ausência piscante é o poeta modernista Raul Bopp. Faltam o médico sanitarista Noel Nutels e o médico esteticista Ivo Pitanguy, o jurista maligno Francisco Campos e uma infindável plêiade que as escolhas de cada um possam incluir. 

Há 34 artistas plásticos, mas, no país do futebol, figuram apenas seis artistas da bola - Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zico, Friedenreich, Garrincha e Pelé. Nenhum técnico. E, numa jogada pela linha de fundo, não convocaram a Enciclopédia do Futebol, o grande Nilton Santos. 

O resultado final, apesar das divergências que cada um possa ter, o que é um estímulo para a preparação da lista pessoal, é muito bom. Estão lá, reconhecidos, brasileiros e muitos estrangeiros que fizeram deste solo um grande País ou trabalharam incansavelmente para segurá-lo ou rebaixá-lo moralmente. Felizmente, a lista dos primeiros - que inclui gente como José Bonifácio, Rondon, Darci Ribeiro - é maior que o rol de pesos-mortos como os ditadores militares, o torturador Fleury e o miçangueiro Dom Pedro II.